A arte embrulho

Por: Anabela Quelhas

Quando a arte envolve grandes escalas e são completamente imprevisíveis, capazes de mexer com a indiferença dos cidadãos, temos obrigatoriamente de referir o artista plástico búlgaro, Christo Vladimirov Javacheff (1935-2020).

Ficou conhecido como o artista que “embrulhava monumentos e sítios” em diversas partes do mundo, juntamente com a sua mulher.

Destaca-se na sua acção em  “Wrapped Coast, Little Bay”, em Sydney, na Austrália, “Valley Curtain”, no Colorado, “Running Fence”, na Califórnia, “Surrounded Islands”, em Miami, “The Pont Neuf Wrapped”, em Paris, “The Umbrellas”, no Japão e na Califórnia, “Wrapped Reichstag”, em Berlim, “The Gates”, no Central Park em Nova York, “The Floating Piers”, no Lago Iseo na Itália, e “The London Mastaba”, no lago Serpentine em Londres.

Esta acção confere uma nova pele aos monumentos ou locais conhecidos, permite transformá-los, respeita-os, e permite que se vivam novos olhares, numa escala invulgarmente grandiosa e surpreendente conferindo a tudo um grande impacto visual e estético. O manto que cobre, também oculta. Oculta os elementos visuais que conferem a identidade já conhecida do sítio ou do monumento, a sua ligação à História exibindo-a em forma bruta e descaracterizada, permitindo a leitura da verdadeira escala e favorecendo a imaginação de cada observador.

Esta prática efémera da arte, torna-a ainda mais apelativa, porque a oportunidade para a observar e sentir, só existe num intervalo de tempo, tornando urgente a sua observação. Tenho uma simpatia especial pelas intervenções deste escultor, porque em vez de partir de uma forma global e bruta e imprimir–lhe forma e detalhes, como fazem todos os escultores, ele faz ao contrário, parte duma pré-existência acabada e cobre-a com uma membrana, que estabelece o contraste entre a singeleza e a complexa manobra de engenharia que tudo isto implica. São mantos de visibilidade sobre construções e sítios que invisíveis, julgávamos imutáveis, que nos obrigam a parar e a reorganizar a nossa informação

Christo tinha a capacidade de transformar o território numa galeria de arte gigantesca, podendo dialogar com o passado e o futuro, com o céu e com a terra, com a história, com a ciência, com a ingenuidade e a sapiência de cada um.

Ainda teremos oportunidade de observar mais uma obra plástica, talvez a última. Ou não, quem sabe? Será na cidade luz em 2021, o Arco do Triunfo.

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