A floresta de Dunsinane

Por: João Madureira

Shakespeare inventou em Macbeth a floresta de Dunsinane que é a tal que se move e nos derrota.

As dúvidas podem tornar uma pessoa agressiva. O romantismo raramente é romântico. As revoluções acabam sempre por fracassar devido às promessas infundadas de felicidade. O verdadeiro socialismo é um sofisma. O seu fundo messiânico é muito velho. Talvez demasiado. As obsessões nunca se transformam em opções democráticas. A tal superioridade moral é fictícia. A sua semântica vive da morte. Da morte do seu próprio ideal. 

As sociedades, apesar de todos os progressos, continuam a ter crises cíclicas de epidemias, avareza e pobreza.

Por alguma razão desconhecida, estão de novo na moda os casacos com cotovelos de camurça e a mania da caça. 

A verdade é que os compromissos deixaram de ser levados a sério e os colarinhos dos senhores doutores andam mais engelhados. A vida social corrompe muita da originalidade humana. Aos exibicionistas dá-lhes a todos para a política. Então ficam cheios de manias alimentares e começam a deprimir-se e a deprimir-nos. Depois, por obrigação partidária, rodeiam-se de imprestáveis, tagarelas e gente muito afeiçoada. Daqueles que gostam de escovar os fatos dos seus chefes e de fazer recortes de jornais, onde eles aparecem. Mas todos sabemos que o toque distinto está nas peúgas. 

Alguns dos doutores têm tias ricas e padrinhos instruídos e bem relacionados. Ou quando não os têm, arranjam-nos. Aprenderam que, para manterem uma certa linha, nunca devem comer uma refeição até ao fim. 

A verdade é que, apesar das boas intenções e dos discursos inflamados e sentidos, nada de substancial muda. Tudo se transforma em rotina.

Todos somos ou bem-queridos ou mal-amados. E depois também há a doçura da paternidade e da maternidade. E o seu egotismo compreensível e desculpável. A maturidade empurra-nos para a literatura. Com a velhice, tudo se torna desculpável. 

São eles que nos dizem que a astúcia é uma coisa tola. Que devemos simplesmente dizer aquilo que sentimos. Depois desabafamos. O pior é quando chegamos a casa e pegamos na bola antisstress até deixarmos de sentir raiva e passarmos a sentir dores articulares, musculares e ósseas. 

A verdade é que não havia motivo para nos arreliarmos. O senhor doutor tinha dito, ao despedir-se: “Afinal, que importância tem o cérebro comparado com o coração.”

Quem tem jeito para o negócio e para a política está safo porque esses são os requisitos necessários para a arte da guerra urbana. Aí está o poder. Aí estão os seus génios da lâmpada. 

A vida é como um riacho onde uns são álamos e outros jacintos.

Os que agora triunfam dizem possuir a virtude da beneficência, mas talvez seja melhor dizer que são, sobretudo, ativistas sem opinião, porque toda ela se resume a um símbolo, a uma sigla, a uma cor. As personalidades burocráticas afastam de si as personalidades autónomas e criativas. 

Já os que possuem algum orgulho são definidos como gente que sofre de alguma espécie de maleita hereditária.

Não devemos aprender os novos costumes esquecendo os velhos. Será que o Diabo tem alma?

Nós, graças a Deus, acreditamos em tudo: em gente do candomblé, magia negra cabo-verdiana, bruxos, homeopatas, amigos do zodíaco, videntes, leitoras de cartas, astrólogos, médiuns, talhadores de ares e até em políticos de todos os quadrantes, não vá o Diabo tecê-las. Por isso não somos gente de grandes rancores, mas de pequenas iras. 

Somos pouco dados à arte e muito ao mexerico, pois a arte não persegue ninguém, é preciso ir buscá-la, enquanto o mexerico vem ter connosco. 

Os portugueses são muito invejosos porque pensam que as grandes qualidades estão sempre nos outros. Por isso, confundem cultura com lugares-comuns espirituosos. E também pensam que o amor é uma vulgaridade. E não se enganam. A sua esperança reside nos fenómenos da casualidade. São avessos à pertinência. 

A verdade é que Portugal é um país pequeno e, por isso, não possui as condições necessárias para se converter no Paraíso. Mas uma coisa vos digo: o espírito de punição não é saudável. E usar o cilício só está a altura dos membros mais proeminentes da Opus Dei. 

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