A fugir do lobo

Por: Joaquim Ribeiro Aires

Carmelindo  residente  na rua de Santa Iria, na Senhora da Conceição, saiu de casa, pelas seis da tarde, em direcção ao Jardim da Carreia, local da sua estimação, desde a infância. Há  mais de dois meses  carimbado com o #fique em casa#,  rejubilava,  agora, intimamente,  com  esta libertação, ainda que fosse precária.  Podia voltar às suas 7 voltinhas  no jardim. “Graças a Deus”, dizia para si. Acabara metade da paranoia. Pelo rua de Santo António,  puxava a fita atrás:

– Pai, não podes sair. A polícia anda na rua. Pertences ao grupo de risco. Com os teus 80 anos,  tens de ficar confinado ao quarto. Vês o mundo pela janela. Nem na sala te quero.  É para teu bem. Sabes que venho do trabalho, e que trabalho o meu!, posso arrastar comigo a covid19. – Filha enfermeira dava nisto: guardado no armário. – Quando  se passou à fase de «calamidade», a ordem era outra: –  Nem penses sair da porta de casa – decretava  ela. –  Pode passar alguém na rua e contaminar-te. Um  dia, desrespeitou o aviso da filha, aproveitando a ausência dela.  Dois garotos, olharam para ele, atónitos e quase paralisados.

– Donde saiu este velho? – perguntou um, de olhos arregalados.

– Ó velhadas, quem te deixou sair da jaula?

–  Vinde cá, fedelhos,  qu’eu sou o zombie do coronavírus e vós já nem daqui saís vivos.

Naquele momento apareceu a filha, que muito zangada ficou com ele, por ter saído de casa e sem máscara, e com os rapazes, depois de saber dos termos nada próprios que usaram para chamarem a atenção do pai.

– Tinha fome de ar, de pisar o chão, de ouvir a fala das folhas das árvores, de conversar com as tílias, de lhes perguntar se iam ficar tristes por não haver Santo António, S. João e S. Pedro.  Como gostava de me sentar na esplanada do café, a ler o meu jornal…  Estou farto de estar no armário,  já cheiro a mofo.

–  Ainda é cedo, para dele saíres. Os cafés  vão abrir, vão. Mas nem penses que lá vais. Esta abertura não significa que o ar está limpo.  Vamos dar tempo ao tempo. Não te quero ver  andar no comboio errado, sabes muito bem disso.

– Que comboio?

– Este  comboio  que nos escancara a porta tem, em si, uma  cilada:  pode vender o bilhete só  de ida. É que sendo diurno, pode trazer-nos a noite eterna. Ainda não é tempo de seres  passageiro deste trem que  nunca para à volta da cidade,  apanhando agora um, depois outro, para os deixar ficar numa estação, onde não há bilheteira de volta. Sabes bem isso.

 Sorriu, ao lembrar-se destas cenas. Mas o tempo de abrir portas chegara, sim. Sem abusar da liberdade, ia sim aproveitar para dar uns passeios e voltar ao «seu»  Jardim da Carreira,  sentir os aromas da relva verde, das flores – que flores haveria? – ver o namoriscar das pombas, e ouvir a pardalada irrequieta, umas vezes a debicar alimento, outras vezes em correrias, jogando ao  esconde-esconde divertido.

Desceu com cautela a  rampa do Calvário. Não chovia, se não dava para escorregar, não queria tropeçar. Na sua idade seria um desastre.   Parou em frente do portão. Em silêncio e em sentido, como a pedir licença para entrar. Só faltou bater a continência.  E disse: pronto; aqui estou; nunca desertei; fui raptado por um ser estranho invisível, que ainda anda por aí. Agora, ali, iria cumprimentar, uma a uma, a nobreza apeada ou dependurada no muro que sustenta o monte Calvário: os Alves e Figueiredo;  os Mesquitas, Pereiras, Correias, Pimentéis, Taveiras, Pintos, Barros e Mourões.  Depois saudaria Camilo, o seu Camilo, ali erecto, embora  com menos de meio corpo e alheio a esse momento duro na vida do mundo. Lembrou-se do deputado de Caçarelhos e o que ele diria no Parlamento, mas logo preferiu recordar a Samardã, por onde passeou, caçou e matou lobos. Carmelindo sorriu. Sabia quase de cor aquele parágrafo de O Degregado “ Na vertente da montanha que dominava a Samardã havia um fojo – uma cerca de muro tosco de calhaus a esmo onde se expunha a voracidade do lobo uma ovelha ranhosa”. Ficou a pensar nestas palavras. “Que diabo! Também eu estive numa cerca, mas a fugir do lobo. Agora que a saltei, espero que ele  não me assalte em campo aberto e abocanhe  a minha débil  carcaça. Ainda é cedo para entrar no fojo. Ai é, é.”

Partilhar:

Outros artigos:

Menu