A um negrilho

Por: Anabela Quelhas

“A um negrilho

Na terra onde nasci há um só poeta
Os meus versos são folhas dos seus ramos.
Quando chego de longe e conversamos,
É ele que me revela o mundo visitado.
Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,
E a luz do sol aceso ou apagado
É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação
Serena!
Tu, imortal avena
Que harmonizas o vento e adormeces o imenso
Redil de estrelas ao luar maninho.
Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso
Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!”


Miguel Torga

Em 1940, Miguel Torga deslocou-se a S. Martinho de Anta para apresentar a esposa aos seus pais e registou essa visita desta forma:

            — «S. Martinho de Anta, 21 de Setembro de 1940 – Aqui estou. Vim mostrar a mulher aos velhos, à Senhora da Azinheira e ao negrilho. Gostaram todos.»  

É esta a importância deste negrilho sobre o qual estou a escrever, 80 anos depois e no dia do aniversário de Miguel Torga.

 Na mesma visita, os pais e o negrilho, na mesma frase a Sra da Azinheira e o negrilho. A Sra da Azinheira talvez para abençoar a união, 

e o negrilho, como se fosse um elemento importante da sua da família, a quem foi apresentar a esposa, como se faz, com os tios, os avós e os primos. Para Torga o negrilho foi um familiar conversador, além de poeta, que lhe apresentava as novidades da terra, quando regressava a S. Martinho, com visita obrigatória e aguardada.  

            Este mestre de inquietação serena que pertence aos gigantes do mundo vegetal, representa simbolicamente a obra de Torga e acaba por ser também da nossa família, porque nos habituamos a ele pela escrita e pela presença no largo do Eirô. A sua ligação à natureza faz-se de forma poderosa através das enormes raízes de um negrilho que se agarram fortemente ao telúrico da terra, equilibrando-se com ela.

            Tudo isto corresponde a um imaginário campestre torgueano. Talvez nem todos entendam o seu significado. O negrilho de Torga, não é uma árvore qualquer, é uma entidade presente quase humanizada, em que as suas folhas são versos e a seiva a inspiração.

            Este negrilho (ou ulmeiro) secou e morreu, talvez porque envelheceu e deixou de ver o amigo e familiar Miguel, porque as visitas terminaram e a saudade fê-lo definhar. Um dia vi a sua raiz junto ao Espaço Torga. Pensei que não estaria ali por acaso. Para mim seria o sítio ideal para admirarmos uma obra da natureza que vale por si mesma, uma escultura divina, sem ter a intervenção do homem, perfeitamente em harmonia com a personalidade de Torga. 

            Enganei-me. Desconhecia que apenas estava em trânsito, aguardando piores dias, para criar uma justificação para a intervenção. Estava a apodrecer, estava a degradar-se…

            A raiz do negrilho obedeceu a um destino cruel, traçado não sei por quem. Soube pelas redes sociais, que lhe deram destino, talhando-lhe o rosto de Torga com motosserra, agredindo mortalmente esta beleza natural e em simultâneo o imaginário de Torga. Desconheço o autor da ideia, certamente nunca entendeu o simbolismo desta árvore, nem a personalidade do escritor. Atitudes destas, mesmo que bem intencionadas, são demolidoras e, pior, irreversíveis. Não ponho em causa o escultor, este apenas deu resposta a uma encomenda. Indigna-me que as entidades com responsabilidades culturais, não entendam a célebre frase de Mies Van der Rohe, que se aplica em tantas situações:

            — “Less is more”. 

            Por vezes, o menos é mais, aqui é o caso. Estavam “quetinhos”, tratavam apenas o envelhecimento da raiz, que seria bem melhor e o Adolfo agradeceria.

(12/08/2020)

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