Ai Portugal, Portugal…

É difícil governar um país onde existem mil e uma maneiras de cozinhar bacalhau. E onde os partidos governantes se digladiam em aparentes conflitos de ideias, se guerreiam nos detalhes, dizendo que possuem competentíssimos quadros, uma militância devota e esforçada, gente com dignidade e imaginação, mas onde a experiência nos diz que a maioria das vezes tudo se confunde e igualiza, num conjunto onde convive gente com voz e peso,  caciques locais, regionais e nacionais megalómanos, representantes de duvidosos interesses económicos e a praga dos bandos cinzentos de profissionais do aparelho, movidos tanto pela ambição como por um mal disfarçado temor ao mercado de trabalho. E, como todos sabemos, o aparelho marginaliza a qualidade, pois periodicamente depura as estruturas partidárias de todos aqueles que teimam em discutir as ideias. A verdade é que estes partidos atraem mais pelo poder que têm do que pelo ideário. A lógica do nosso sistema leva a que se autossucedam no governo. E quando toca a um deles estar na oposição, instala-se no seu interior um clima de guerra permanente que provoca o choque entre barões e fações. Se o regime democrático tornou os protagonistas políticos mais sagazes, estou em crer que não os fez mais justos ou mais cultos. Por isso temos de nos habituar a gostar do país que somos e deixar de pensar em como seria bom gostar do que poderíamos ter sido. Dizem-me que as multidões inorgânicas estão sempre à mercê de um discurso populista, mas também é verdade que a nossa burguesia é constituída ou por um grupo de homens e mulheres demasiado sofisticados ou por patos bravos cuja jactância social, política e cultural faz ruborizar as elites. Neste país tudo é de funcionamento lento, os funcionários têm demasiado poder e pouca eficácia, predominam as manobras de bastidores e anda-se permanentemente atrás dos acontecimentos. Salazar, e o seu Estado Novo, consagrou-nos como um Portugal dos Pequeninos e daí não conseguimos passar. Nós somos como o tal pepino que de pequenino se deixou torcer. O passado recente foi feito à imagem e semelhança do senhor de Santa Comba Dão. Mas parece que ninguém tem a necessária estaleca para começar o nosso futuro. A maioria do povo vota em quem votou, deixando à minoria volúvel a obra da alternância do poder. É esta a lógica da democracia. As campanhas eleitorais são protagonizadas por gente que costuma vestir a fardeta pedagógica, onde um homem ou uma mulher que nunca vimos nos aborda para nos explicar aquilo que verdadeiramente não sabe acerca daquilo que não nos interessa. Um olha para o seu próprio espelho e o outro sorri porque é carnaval e ninguém leva a mal. Mas essas quinzenas de luxo cada vez nos saem mais caras e pouco nos divertem. Já vai sendo normal o profundo desencanto do eleitorado. Os partidos, todos eles sem exceção, são cada vez mais estéreis nas ideias, mais inconstantes nas bandeiras e mais imediatistas nos projetos que apresentam. A hegemonia da mediocridade é hoje a principal característica do nosso sistema democrático. Já não há ideologias, mas sim pragmatismo, como se ele fosse uma espécie de inevitabilidade. Um Estado que depende de gente que depende dele é a fórmula perfeita para criar, e crispar, uma seita que tudo manobra nas catacumbas onde se acantonou. Fórmulas fechadas de conduzir e gerir o poder estão a debilitar, de forma permanente, o Estado democrático. Os homens dos aparelhos sabem tudo sobre a fórmula como agradar ao líder mas nada sabem sobre o país e sobre a sua vida quotidiana, pois vivem fora dela. Mas a verdade é que não se constrói um país democrático vociferando constantemente contra o fascismo e cuspindo na campa ou na estátua de Salazar. Os portugueses já não se deixam mobilizar com os apelos para o combate aos moinhos de vento. Atualmente, a verborreia antifascista é pouco mais do que zero. Claro que a luta democrática valeu e vale a pena, mas não se governa um país com critérios de ocasião e muito menos encharcando de fiéis medíocres os altos cargos públicos da Nação. Todos esperamos que a glória democrática não se transforme num vírus. Não vale a pena que, por causa da nossa falta de ideias, passemos a implementar as ideias dos outros. A alternância dos discursos faz com que nenhum deles tenha credibilidade. Os resultados do controlo administrativo da qualidade pela mediocridade estão à vista de todos. A corrupção é diária. O pudor e a paciência começam a esgotar-se. E os aparelhos partidários continuam a nada esquecer e a nada aprender. A resolução das verdadeiras questões nacionais não obedecem já à velha dicotomia esquerda ou direita, mas antes à de conservadorismo ou modernidade.

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