Ainda não é o fim do mundo


Por:  J. Ribeiro Aires

– Ai , meu rico netinho, estamos no fim do mundo.

– Ó Vó, qual fim do mundo, qual quê? –  questionou, sorrindo, o neto, esta garantia da avó. 

– Estamos, estamos. Este é um grande sinal. Está a morrer gente, em barda, por todo o lado. Já nem querem que saiamos de casa.

– Agora já pode.

– Ai filho!  Todos os dias morre gente. Nossa Senhora nos ajude.

– Isso. Reze, que o rezar faz bem à alma. 

–  Se eu pudesse ir à missa… Se houvesse missa… Mas  rezo. Rezo por ti, pela tua mãe, pelo teu pai, pela tua irmã, pelo mundo.

– Pelo mundo?

– Sim. Nós pertencemos ao mundo. Se o mundo estiver  bem, talvez, também,  nós  o possamos estar.  O mundo está mal  e nós estamos como o mundo.

Em  tempo de calamidades – pestes, fomes, guerras – era normal  aparecerem os profetas da desgraça com anúncios do fim do mundo iminente ou próximo, com dia e hora marcados. Eras houve em que as populações faziam procissões, pedindo a Deus  e aos santos que livrassem o mundo das moléstias que levavam milhares de pessoas aos túmulos. Nas igrejas, capelas das cidades, vilas e aldeias batia-se no peito pedindo perdão pelos pecados próprios e dos outros: por  “mea culpa, mea maxima culpa”. O medo ou mesmo o terror modelavam  comportamentos,  alteravam atitudes. Havia ódios que se desfaziam em pó, embora muitos só na aparência, não fosse a epidemia abocanhar os desavindos e levá-los para a profundeza dos infernos. A ajudar, não faltavam os avisos dos párocos, sintetizados num “ arrependei-vos que o Senhor vos perdoará.”

Na Idade Média, nos anos em que o «coronavírus» era outro, a certeza de que a peste, igualmente transmitida pelo bafo dos infectados, levava os mais abastados, apesar de se refugiarem nos campos, numa segunda residência, a bem da sua alma e de um lugar num cantinho do céu, a desfazerem-se de alguma da sua riqueza, entregando-a à Igreja, pois já Cristo ensinava que “era mais fácil um camelo passar pelo cu de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus.” Hoje, não é, certamente, assim. Os ricos, os milionários já não querem comprar o reino dos céus. Muitos não acreditam nele..  Compram a «medicina». Trump já se abotoou com quase toda a produção do Remdesivir, como garantia de alguma eficácia. O resto do mundo que se avenha. O importante é o seu «reino», melhor, o seu reinado. 

Já que estamos a falar de ricos e é para eles que os pobres olham, cobiçando-lhes as riquezas – também é para eles que o Partido Comunista  e o BE olham, com a cartilha de Lenine –  e os modos de vida, eis os suecos a viverem, socialmente, confortáveis, com um comportamento criticável. Para eles a pandemia tem sido como comer ao pequeno almoço sanduiche recheada com peixes ou carnes frias, queijo, maionese e legumes, como pepino e tomate, ou panquecas (pannkakor). O coronavírus saltita de pessoa em pessoa. Se fosse visível como os piolhos, já tinham tratado de desinfectar-se. À maneira de Bolsonaro, quem tiver de adoecer que adoeça, quem tiver de morrer que morra. Ou seja: abandonaram os internados com 65 anos ou mais; deram ordens para não serem tratados ou assistidos, para poderem morrer à vontade, sós ou acompanhados. Isto é prática de eugenismo. Só Hitler faria melhor com os seus médicos de morte.

– Isto é Deus a castigar-nos – voltava a D. Engrácia, nos seus 85 anos. – Esta praga que varre a terra é um aviso, para arrepiarmos caminho de tanto mal que estamos a fazer à Terra.

– Não Vó. São os homens a castigar-se a si próprios. Isto é só uma crise, ainda não é o fim do mundo.

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