Amarcord

Por: João Madureira

Lembro-me das discotecas dos anos setenta, todas nas entradas da cidade, com hall, porteiros, bilheteira e uma grande pista de dança sobrevoada por esferas de luz estroboscópica, um balcão lateral ou ao fundo e sofás na zona mais escura onde os casais se escondiam. Aquilo funcionava entre a meia-noite e as três ou quatro da madrugada. Dançava-se muito, mas, sobretudo, bebia-se cerveja e fumavam-se cigarros até o ambiente ficar pesadíssimo. Nas casas de banho esganavam-se os charros. A rapaziada dançava. Os mais duros olhavam, nunca dançavam, talvez para não se sentirem ridículos. As raparigas bebiam menos, fumavam menos, mas dançavam mais. Muitas passavam a noite a dançar. A maioria bailava todo o tipo de música por igual, mas havia algumas que dançavam todas as músicas de maneira diferente, adaptando-se ao ritmo como uma luva se adapta a uma mão. Naquela altura estava na moda imitar o John Travolta e a Olivia Newton John, por causa do filme Febre de Sábado à Noite

É terrível quando nos damos conta de que as coisas que aprendemos em determinada altura não nos servem para nada, ou estavam simplesmente erradas. A inquietação transforma-se em medo. 

A verdade é que nessa altura os jovens e os seus pais viviam em mundos diferentes. As diferenças culturais eram grandes e tendiam a acentuar-se. Aquilo que os pais pensavam ou deixavam de pensar passou a ser irrelevante. 

A situação política passou do zero ao cem, em pouco tempo. E isso pôs toda a gente a refletir. Havia os que pensavam que sim. Os que pensavam que não. E também aqueles que não sabiam bem o que deviam pensar. 

Era a época da política por tudo e por nada. Diziam-se pequenas mentiras, a maioria delas inofensivas. Mas evitava-se falar verdade, por se julgar ser esse um procedimento imprudente. 

Alguns passaram das drogas leves para as duras, assim de repente. E isso não foi bonito de se ver. Muitos até tinham pinta de bons rapazes. Naquela altura todos imitavam a forma de vestir, de se pentear, de andar e de falar uns dos outros. Os adolescentes da altura imitavam o lado selvagem dos cães domésticos. 

A verdade é que, por vezes, algo se mete nos mecanismos, alterando por completo o seu modo de funcionamento. 

Mas quem é forte não precisa de exibir a sua força. Só os fracos o fazem. 

Há sempre um início para o declínio. Então surgiram de maneira evidente as discussões, os protestos, a má-criação e os silêncios hostis. Os adolescentes frágeis e tímidos deixaram de o ser. A ignorância não era premeditada. Fazia parte dos sintomas da subordinação. 

E havia por aí uns tipos duros, ligados a organizações clandestinas. Eram indivíduos realmente duros. Mas os tipos realmente duros são quase sempre uns pobres homens. A ficção da sua realidade acabou por consumi-los. 

A realidade é que olhava para todos nós ao mesmo tempo. 

A verdade é que as grandes ideologias acabam por cair vítimas do seu próprio peso. Muitas vezes não é o medo aquilo que nos derrota, mas o esforço desproporcional que fazemos para o esconder. 

Numa década fomos capazes de criar e destruir um mito. Os seus percursores transformaram o sonho em anacronismo. A nossa revolução transformou-se num postal ilustrado. Uma coisa ridícula que se ia sustentando a ela própria como um circo ambulante. Uma espécie de guia turístico para adolescentes de classe média. Nas cidades começaram então a urbanizar-se as hortas e a construírem-se os bairros sociais. E também parques e bairros com casas geminadas, garagens, jardins e churrasqueiras. 

Muitos homens começaram a desenvolver uma espécie de fixação infantil em colecionar selos. Seria pior se lhes desse para o vinho. 

O bom rebelde acaba por se transformar num malfeitor que, ao compreender o mal que fez, se converte numa espécie de delinquente arrependido.

Muitos homens passaram a querer e a não querer ser aquilo que eram. Ou que diziam que eram. Defendiam os proletários mas não queriam estar na sua situação. Eram bons a solucionar os problemas sociais dos outros mas eram incapazes de desmentir as suas próprias contradições. Diziam defender os trabalhadores mas o que desejavam era ser bons burgueses. Solucionaram a questão transformando-se em sociais-democratas. Os mais radicais optaram mesmo pelo liberalismo.

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