As desalmadas

Lembro-me de, na biblioteca do no nosso velho Liceu, estar pendurada uma cópia de um quadro de Édouard Manet (precisamente o que lhe deu a fama), onde se podiam ver dois homens e duas mulheres num piquenique sobre a relva, nos arredores de Paris. Nada haveria de estranho a não ser o pormenor de os cavalheiros estarem impecavelmente vestidos e as donzelas se encontrarem completamente nuas. Eles conversam um com o outro sobre algum assunto sério, provavelmente negócios ou política, já elas evidenciam uma importância ainda menor que as árvores da paisagem. A mulher que aparece em primeiro plano olha para nós como que a perguntar, lá do alto da sua nudez aleatória: “O que faço aqui?”

O teólogo frei Martín de Castañega confirmou que o Diabo gostava mais das mulheres do que dos homens “porque elas são pusilânimes e de coração mais fraco e de cérebro mais húmido”. Satanás seduzia-as, acariciando-as com a sua pata de bode e a sua garra de madeira ou disfarçando-se de sapo vestido de rei. (Aqui que ninguém nos ouve, eu acho que quem estava possuído pelo Belzebu e louco eram os teólogos, que deviam consumir, além de leituras heréticas, muito álcool e substâncias alucinogénias).

Os exorcismos das possessas atraíam multidões que enchiam as igrejas. Os exorcistas, para se protegerem de algum contágio herético, usavam escapulários cheios de sal consagrado, arruda abençoada, cabelos e unhas de santos. Depois erguiam um crucifixo e começavam a lutar contra a bruxaria. Dizem que elas blasfemavam, uivavam, ladravam, mordiam e insultavam nas línguas do Inferno, arrancavam as roupas com as mãos e riam-se à gargalhada, exibindo as suas partes pudendas. Quando chegava o momento culminante, o exorcista rebolava pelo chão, abraçado a um dos corpos das possessas onde o Diabo residia, até cessarem as convulsões e a gritaria. No final, havia sempre gente que procurava no chão os pregos e os vidros vomitados pela endemoninhada.

Num dos livros de filosofia acabei por ler a seguinte frase de Aristóteles: “A fêmea é como um macho disforme. Falta-lhe um elemento: a alma.” Do mal o menos, pensei.

Os livros de História dizem-nos que no século XVI, existiam em Bolonha quinhentos e vinte e quatro pintores e uma pintora.

No século XVII, frequentavam a Academia de Paris quatrocentos e trinta e cinco pintores e quinze pintoras, todas mulheres ou filhas de pintores.

Um século mais tarde, Suzanne Valadon ficou conhecida por ser vendedora de hortaliça, acrobata de circo e modelo de Toulouse-Lautrec. Talvez para não desperdiçar hortaliça, usava espartilhos feitos com cenouras e partilhava o seu estúdio com uma cabra. E também pintava. Por causa da sua fama de excêntrica, foi a primeira mulher que se atreveu a pintar homens nus. Além de não ter alma, tinha mesmo de ser doida.

Erasmo de Roterdão, lá do alto da sua alta sapiência de macho, dizia: “Uma mulher é sempre uma mulher, ou seja, louca.” Isto depois de ler milhentos livros e de escrever centenas de tratados. Dizem dele, os entendidos nestas coisas da alta cultura, que este filósofo e teólogo, apesar da sua cultura clássica, teve uma influência crescente do Renascimento.

Outra desalmada e demente, na alta sapiência de Aristóteles e Erasmo, Camille Claudel, foi declarada louca pela família que, por isso, a resolveu internar num manicómio. Para alguma coisa servem as boas famílias. Passou aí, como prisioneira, os últimos trinta anos da sua vida. Foi tudo para seu bem, disseram os da sua estirpe. No seu cárcere gelado recusou-se a desenhar e a esculpir. A mãe e a irmã nunca a visitaram, apenas o seu irmão Paul, virtuoso poeta e diplomata, surgiu por lá. Quando Camille morreu, ninguém apareceu para reclamar o corpo. Descobriu-se, passados muitos anos, que a desalmada e louca Camille, afinal, não tinha sido apenas a amante humilhada de Auguste Rodin. Meio século passado sobre o seu falecimento, as suas obras renasceram, viajaram e assombraram. Definiram-nas como bronze que dança, mármore que chora, pedra que ama. No Japão, dizem que os cegos pediram licença para as tatearem. Os que as tocaram asseguraram que as esculturas respiravam.

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