As palavras estão cada vez mais chiques

Por: Anabela Quelhas

Quando escrevi o meu último livro, não sabia como referir-me aos mais escurinhos, se devia chamar-lhes, negros ou pretos, para não ferir ninguém e para não ser conotada como racista, colonialista, exploradora e sei lá o que mais.

Os conceitos vestem-se de palavras, distraindo o observador do seu verdadeiro conteúdo. Finge-se com o palavreado, para se alinhar no politicamente correcto. Tudo fica com mais brilho, mais digno, mais clean, muito mais chique… mas tudo é mesma coisa. A pompa das palavras, bem espremidinha, como se costuma dizer, o que dá? Mais do mesmo, mas pronto!

Mudam-se as palavras, o conceito permanece. 

A palavra forte, aborto, substitui-se por Interrupção voluntária da gravidez – 3 palavras para substituir uma só e que não dá jeito nenhum para insultar. 

—Tu és um aborto! 

Tem impacto! 

— Tu és uma interrupção involuntária da gravidez!

… já não é a mesma coisa. 

Eutanásia, seria algo criminoso, morte assistida é mais tolerável. 

Na escola, os mal-educados e irrequietos passam a ter comportamentos disfuncionais hiperactivos. Na escola não se pode dizer que um aluno é pouco inteligente, deve dizer-se que possui dificuldades de aprendizagem… assim como, ele é um baldas ou um calão, deve dizer-se que tem interesses divergentes da escola. Os desatentos, têm deficit de atenção.

Bicho do mato — pouco sociável.

Cego — invisual

 Alguém que tem uma opinião política diferente da maioria, diz-se que investe numa política fracturante. Se tomou uma bezana, ficou embriagado ou até ébrio, dando um ziguezagueado muito mais delicado.

As mães solteiras passaram a ser autoras de produções independentes e, mais actualmente, geram famílias monoparentais.

 Os amancebados já não são criticados pela sociedade, passando a ter uma união de facto. 

Os patrões e chefes passam a líderes, e os operários, a colaboradores.

Contínuos — assistentes operacionais;

Caixeiros viajantes — técnicos de vendas; 

Deixei de ter criada, passei a ter empregada doméstica, depois funcionária de limpezas e hoje tenho uma auxiliar de apoio doméstico.

O salva-vidas é hoje o nadador-salvador.

O careca passou a ser um paciente de alopecia.

Drogado é toxicodependente.

As fábricas convertem-se em unidades de produção.

O analfabetismo passou a iliteracia, e a teimosia, passou a resiliência.

O cócó passou a ser resíduo sanitário sólido. A escolha dos cócós, gestão de resíduos sólidos.

Esterquice — poluição;

Lixeira — aterro sanitário. 

As cadelas já não estão com o cio, estão em fase de acasalamento e reprodução.

O aleijado assume-se como deficiente motor, o gajo irritante, instável e neurótico, que tanto ri como chora, passou a bipolar. 

Asilo — casa de repouso ou lar da 3ª idade. A mitra — casa de acolhimento.

A cadeia, já não é cadeia, porque pode traumatizar, é estabelecimento prisional e quem lá vive, é alguém provisoriamente privado de liberdade. 

As palavras estão cada vez mais chiques e mágicas, calçam sapatos de verniz, vaporizador contra o mau hálito e muita laca no cabelo. Palavras que tornam a realidade mais leve e mais motivadora…

Escolhi negro em vez de preto, mas não sei se fiz bem, afinal chocolate preto é bom, lista negra, é mau. Feijão preto é bom, mercado negro é mau. 

Palavras chiques em salto alto. 

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