Ave, Caesar, Morituri Te Salutant

Caseiro Marques

Era com esta premonitória frase, dita de joelhos, com voz alta, em plena arena dos circos romanos, que os gladiadores saudavam os imperadores, sentados na tribuna de honra, imediatamente antes de entrarem em combate com os seus adversários.

E a populaça romana divertia-se a ver cair, uns atrás dos outros, os gladiadores que, na arena, se iam esforçando por sobreviver, apupando os mais fracos e glorificando os vencedores.

Mas nem os vencedores escapavam ilesos daqueles espetáculos hediondos, bárbaros, com que os imperadores calavam o povo, quando as governações corriam mal. Enchiam-lhe os bandulhos de comida e vinho a rodos. E ofereciam-lhes os espectáculos nos circos, nos quais, homens experimentados ou nem tanto, se enfrentavam uns aos outros, pois havia lutadores profissionais, ou combatiam com feras, trazidas de África, tais como leões e tigres.

Mas nem os vencedores estavam a salvo da fúria insana dos espectadores e da vontade louca do imperador. É que, por sua vez, no final dos combates, os vencedores ainda estavam sujeitos a que, a pedido da populaça, ululante e desejosa de mais sangue, vissem o imperador colocar o seu dedo polegar virado para baixo em sinal de que também o vencedor teria de ser morto.

Esta imagem, salvo as devidas proporções e situação no tempo histórico e social, tem-me feito pensar nos idosos, amontoados nos nossos lares, de norte a sul de Portugal, que também eles lutam, cada um à sua maneira, contra a exclusão a que são votados, contra as doenças que os apoquentam e contra a idade que têm, tentando escapar da morte certa, que, mais tarde ou mais cedo, os vai levar para o outro mundo.

E com a situação que vivemos neste momento, com a vinda de um vírus, que chegou das terras onde manda um imperador, senhor todo-poderoso, que sacrifica o seu povo e os seus direitos mais básicos, onde se violam constantemente, desde há mais de sessenta anos, todos e qualquer espécie de direitos humanos, a começar no direito à liberdade de expressão e à liberdade de pensamento e prática religiosa, mais encontro linhas de comparação com a situação dos idosos nos nossos lares.

Depois, temos os governantes que, em vez de acudirem aos problemas de quem os elegeu, e aos de quem deles espera compaixão e cuidados básicos, com critério e sapiência, antecipando esses problemas e prevenindo-se para as catástrofes, parece que andaram distraídos com outro tipo de preocupações, com jogos de poder, deixando nas centenas ou milhares de arenas em que se transformaram os nossos lares de idosos ao abandono, sem apoios.

E, para cúmulo, quando se trata de atenuar os ferimentos, curar as feridas ou prevenir a morte sacrificial desses idosos, lutadores, fazendo testes para se conhecer a sua situação física, no que ao vírus diz respeito, por onde se começa?

Vejam-se as prioridades estabelecidas pelo Governo: entre elas, Guarda, Évora e outras regiões, onde o problema quase não existe. Isto em vez de começarem co pela região norte, onde tudo começou e a situação é mais grave e pode piorar.

E mais não digo sobre esta tragédia.

É, pois, caso para os nossos idosos, que infelizmente tal como os lutadores romanos não têm voz, não têm escolha possível, se não continuarem a lutar, mesmo sabendo que no final podem morrer todos, repetirem como eles: AVE CAESAR, MORITURI TE SALUTANT.

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