Carta para Maria

Por Anabela Quelhas

“Maria” migrou para Lisboa, procurando vida melhor. Trás-os-Montes sempre teve terra pouco generosa, obrigando os seus, a partirem para outras paragens, onde existiam mais oportunidades. Sempre foi assim, primeiro foi o Brasil, depois África e os Estados Unidos da América, e mais recentemente a Suíça, Alemanha e França, foram o destino da emigração. A migração escolheu Lisboa, cidade grande com alguma indústria e serviços, capazes de acolher alguns transmontanos, especialmente as criadas de servir. Abalavam quase que com a roupa que tinham no corpo, expondo-se a uma família que por vezes as espancavam ou desrespeitavam. Ir servir, era uma faca de dois gumes. Algumas nunca mais voltavam à terra. Com esta estória não pretendo salientar o lado sombrio, mas sim, o lado irónico que contém.    

Saídas corajosas, que deixavam muitas saudades nos familiares, na época que só havia o correio e o telefone custava caro.

Então, Maria e a sua mãe iam trocando cartas, daquelas que começavam sempre da mesma maneira:

Querida filha, espero que esta te encontre bem de saúde, nós por cá, estamos bem, graças a Deus. Por aqui tem estado muito frio. E por aí?

… terminando,

Agasalha-te para não adoeceres, e porta-te com a educação que te demos. Cumprimentos da vizinha, um abraço da tua avó e muitos beijos dos teus humildes pais que te adoram.

No meio da carta seguiam as poucas novidades da aldeia,

… quem veio no dia da feira, o que disse o padre na missa, se já nasceu o nabal, se a pita amarela tem posto ovos, comunicar alguma escaramuça ocorrida na aldeia, quem casou, quem se supõe namorar, quem já matou o porco, quando nevou, quem anda na doutrina, se já nasceu o menino da Conceição,… O sr. Joaquim está muito doente. A vaca amarela, já pariu…

Não tinham rádio, nem televisão, não havia conversa sobre nada disso. Só as rotinas contavam.

A mãe de “Maria” tinha sorte, ao contrário do seu companheiro, aprendeu a ler e a escrever quando era pequena, na escola. Não tinha que ir ao Vieira, pedir para lhe lerem o correio. Lia e escrevia juntando as letras, soletrando, porque não tinha prática, mas dava para se desenrascar. Demorava algum tempo a escrever, tentando uma letra redonda, uma após outra, que a enxada e a gadanha, não lhe ajudavam a apurar. Sentava-se na única mesa que tinha, na cozinha, à luz da candeia, e alinhava algumas palavras sobre o papel fino que lhe tinham arranjado na mercearia, com esforço e dedicação para a sua menina que tinha ido para Lisboa, servir, apenas com 13 anos,

Um dia escreveu assim numa letra escangalhada, engelhada e sofrida:

“Querida filha, só para te dizer que estamos bem, graças a Deus. Escrevo-te poucas linhas e desculpa os erros, porque tenho andado mal dos dentes, tirei três e não posso dizer bem as palavras. Mal posso abrir a boca.”

“Histórias no Maçadoiro” de Anabela Quelhas

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