Centenário de nascimento de Manuel Vaz de Carvalho

Exponha-se a luz, bem à vista de todos, de preferência no alto do monte, para que possa ser solenemente contemplada e a sua fulgurante e memorável luminosidade possa alumiar as serranias que, durante dezenas de anos, lhe proporcionaram deliciosas caçadas. Que essas paisagens do Alvão e Padrela, passando por S. Martinho e penetrando Trás-os-Montes adentro, prenhes de musas encantadas, que de forma gratuita lhe forneceram inspiração para os seus poemas, se abram a novos vates, que tentem alcandorar-se ao seu nível criativo e culto.

Dele nunca se ouviram exigências de reconhecimento, nem palavras amargas clamando por prémios e prebendas, como outros, talvez menos merecedores, fizeram e vão fazendo, quantas vezes sem, nem de perto, nem de longe, conseguirem aproximar-se da sua estatura como poeta e autor de outros saborosos escritos, conhecidos uns e inéditos outros.

Que delícia era escutá-lo, na teia ou em eventuais comemorações, quando a verve se soltava, franca e clara, abordando a literatura clássica, falando dos sábios gregos e romanos, como se na sua vida mais nada lhe tivesse tomado o tempo e ocupado a sua mente. Extasiado e com uma pontinha de inveja, entremeada com uma enorme admiração respeitosa, bebia as suas palavras, em silêncio, em perfeita harmonia com o que ouvia, quase meditação, sobre os pensamentos, os saberes e citações que fazia de memória, como se tivesse lido as grandes obras clássicas da antiguidade no dia anterior.

Não é preciso escrever sobre as mãos que dedilhavam as cordas da sua guitarra com mestria carinhosa e estremecido cuidado, como se estivesse ocupado em escrever mais um poema, com o pensamento num antigo amor, lembrando uma infausta caçada, um animal dedicado ou perseguido por um sentimento frustrante e impiedoso, de que tantas vezes deve ter sofrido, talhado que estava para travar lutas jurídicas, em arenas cheias de percalços e resultados incertos, dependentes das apreciações de terceiros.

Salvavam-se as tardes passadas em amenas cavaqueiras, pessoa de hábitos que era, quase sempre nos mesmos locais, se possível em companhia que merecesse ouvi-lo no alto da sua sabedoria popular e ao mesmo tempo erudita, sabendo bem como utilizar uma e outra conforme as circunstâncias. Sabia fazer-se entender fosse qual fosse o palco que lhe era proporcionado.

Apesar do seu porte nobre e distinto, não escondendo nunca as suas origens, mas não fazendo gala de as evidenciar, descia facilmente até aos mais humildes que o procuravam para se aconselharem, quantas vezes sem preocupação com a paga.

De trato fino e disponível, a porta do seu escritório estava sempre aberta para ajudar e esclarecer os colegas mais novos, dos quais não escondia a aparente desarrumação que apenas existia aos olhos de quem não conhecia a sua prodigiosa memória.

Por tudo isto e muito mais que me é difícil transmitir, por insuficiência minha, muito me apraz lembrar nesta semana, exactamente no próximo dia 13 de Março, a ocorrência do centenário do nascimento do meu ilustre colega e amigo Senhor Doutor Manuel Magalhães Vaz de Carvalho, o marido extremoso, o pai atento, o amigo caloroso, o advogado exemplar, o poeta, que nos deixou entretanto e que bem merece ser reconhecido pela comunidade a quem serviu durante muitas dezenas de anos, colaborando para a imprescindível paz social e o seu enriquecimento cultural.

António Francisco Caseiro Marques

Menu