Club de Vila Real entre o mel e o fel


Por: Ribeiro Aires

O Club de Vila Real está nas «bocas do mundo», isto é, nas de Vila Real, cidade que também é um mundo, onde parece que nada acontece, mas onde  muita coisa vai sucedendo, embora as notícias não passem na RTP, SIC, TVI,  BBC, na Globo, na Sky News ou  na Aljazira. Basta o facebook para a globalização.

O Club de Vila Real  foi notícia da semana passada  porque  vai mudar-se  para um zona livre, sem constrangimentos,  não sei se com vontade de esticar melhor  as pernas e os braços para dar mais facilmente umas cambalhotas, se por estar cansado do antigo solar, onde se instalou há mais de cem anos, se por lhe terem lembrado que os tempos actuais são de uma  república em crise e que há obrigações senhoriais a cumprir ou se  encontraram mansão mais adequada aos seus interesses e propósitos  ou se o motivo principal tem a ver com  os fantasmas  dos marqueses degolados em Agosto de 1641, acusados do crime de lesa-majestade ou se  estava em ruínas a parte do palacete que ocupava. Mas nesta polémica não entro eu, porque as mangas são largas e compridas e não sei quanto pano será necessário para elas, pois vai depender de quem vai vestir a indumentária, tantas são as vozes que se acorrem à alfaiataria. Então, porque venho eu a este tabulado? Não é para uma dança de roda, nem para  uma corrida de cavalos, subsidiada pelo último marquês D. Luís de Noronha, que Deus tenha na sua santa glória, nem tão pouco para verter um lágrima por esta deserção da Carvalho Araújo e António Azevedo  dois dos notáveis da cidade, curiosamente um republicano e outro monárquico.

E vem mesmo a propósito esta dicotomia política, como ponto de partida para uma breve história desta instituição com um século e um quarto.

Fundado em 15 de Dezembro de 1894, com instalações na rua Central, transferiu-se em 1909  para a Casa do Arco, na rua com o mesmo nome e, tempo depois para a Casa da Torre, a dos marqueses, assim no-lo ensinam A.M. Pires Cabral/Elísio Neves no seu livro  Vila Real História ao Café, pag. 125.  Talvez esta última  data seja aquela que é referida pelo O Villarealense de 8 de Fevereiro  de 1912, quando informava que “Na sua nova casa da rua do Arco, pertencente ao conde de Trevões [visconde de Tevões, Emílio José Ló Ferreira], vae ser installada no dia 1 de Março a assembleia do Club de Villa Real. Dizem-nos que por tal motivo se preparam alli algumas  manifestações de jubilo para essa ocasião, promovidas entre  os illustres  membros d’aquella colectividade.” Foram primeiros presidente e secretário, respectivamente, o dr. Manuel Alves da Silva e o dr.  João António Cardoso Baptista.   O Club de Vila Real ocupava dois andares e um sótão. No primeiro andar  os espaços existentes era os seguintes:  bar, cozinha, sala de Jogos, sala de conferências e  dois salões. No segundo andar há  cinco salões mais pequenos e uma sala de exposições. Foi,  desde a sua fundação e até ao último quartel do século passado a instituição que, palco de charme e elegância, congregava à sua volta  a fina flor – permitam que diga assim – da sociedade vila-realense.  Muitas foram as figuras políticas e culturais da cidade que pertenceram aos seus órgãos sociais. Não dispondo de todos os elementos, cito: drs. Sebastião Ribeiro, Manuel Cardona, Júlio Teixeira, Júlio Viana, Alberto Pinto Lisboa, José Borges Rebelo (dr. Zézé); José Tibúrcio Monteiro, José Maria Aguilar, José Firmino Faria;  Abílio Guimarães Fernandes, Luís Taboada, José Augusto Taboada, Joaquim Fernando Ferreira Borges, Joaquim Carlos Barros de Mesquita;  Chico Costa (cor.), José Pereira da Rocha (cap.), Luís Faceira (cap.);  prof. António Cunha Serra; Délio Machado, Armando Ferreira Setas, Alberto Passos, Eduardo  Cândido Lopes da Silva, entre muitos outros membros dos órgãos sociais mais antigos.

A vertente cultural desde Club como “Sociedade Recreativa” é a sua genética: conferências, concertos, bailes sociais, jogos florais, exposições, apresentação de livros. As direcções mais recentes incluíram  a vertente desportiva, denominadamente, o ténis de mesa, com vários títulos regionais e nacionais, consolidando o  ecletismo da sociedade.

A notícia da mudança de instalações deste Club parece ser  o abrir de uma cortina  que revela o interior de um contencioso duradouro com os proprietários, já lá vão uns curiosos 69 anos, assim no-lo lembra a  acta  da Direcção de  17 de Outubro de 1951. Homens e instituições não são eternos e as casas são como os chapéus…

RECTIFICÃO – no último texto “Centenário da Morte de Morais Serrão”, último paragrafo, onde se lê «Manuel José Morais Serrão nasceu no dia 16.12.1866”, deve ler-se “… nasceu  no dia 6.12.1866”.

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