D. Fernando, Marquês de Vila Real em Portugal, «rei» em romagem a Compostela

Por: Ribeiro Aires

As celebrações do Dia da Cidade este ano foram extraordinárias.  Não houve bombos, foguetes ou arraial, como antes não havia. Extraordinárias porque não comuns. Só por isso.  Primeiro pela variedade de máscaras que nos continua a esconder uns dos outros e que a História registará.  Extraordinárias porque juntou os agraciados com medalhas de 2020 e 2021 que não receberam as palmas do público, ausente da cerimónia, necessariamente restrita. Extraordinárias porque o discurso do “estado do concelho” proferido pelo presidente do município seguiu as normas em vigor para acontecimento no género – transmissão via internet. Mas também podemos também dizer extraordinárias porque foram apresentados dois livros que ficam a marcar a História da cidade. Um, numa segunda versão sobre a História das Freguesias do Concelho, revista, aumentada e com nova arquitectura, de que sou autor – desculpem puxar a «brasa  à minha sardinha» – e outro, uma tese de doutoramento com o título  “A Casa Senhorial dos condes e marqueses de Vila Real, séculos XV-XVI”, de professor doutor Carlos Silva Moura, da Universidade Nova de Lisboa e de que  falamos noutro local desta edição do NVR. Este livro, um estudo aprofundado do período referido, é um maná de informação sobre a família condal, sobre o marquesado, a sua importância no reino, sobrando o seu prestígio para Vila Real que ostentou durante o período em causa o estatuto de “Corte de Trás-os-Montes”

Mas aquilo que aqui  vos trago é o episódio em título, referido pelo historiador Damião de Gois (1502-1574), para deduzirmos um pouquinho da importância do marquesado e deste marquês, D. Fernando de Meneses.

El-rei D. Manuel propôs-se visitar casas de devoção para pedir agradecer a Deus o quanto lhe estavam a prosperar os negócios passados e para que os futuros fossem bem sucedidos.  Santiago de Compostela foi uma delas. Aconteceu em Outubro de 1502. E aqui  queria  agradecer  a forma como subiu ao trono, assim como a paz com Castela. Ora diz o nosso historiador quinhentista: “Nesta romagem levou consigo o bispo da Guarda, D. Pedro, que era também prior de Santa Cruz de Coimbra, e D. Diogo Lobo, barão de Alvito, D. Martinho de Castelo Branco, D. Nuno Manuel, seu guarda-mor, D. António de Noronha, seu escrivão da puridade e D. Fernando, 2º Marquês de Vila Real, a quem el-rei mandou depois de ser na Galiza, por não querer que se soubesse qual dos da companhia era, que todos acatassem como a sua pessoa”. Ou seja: D. Fernando foi servindo de rei até Compostela, porque o rei queria viajar incógnito e deu ordem a toda a comitiva que obedecessem a D. Fernando em tudo o que ele mandasse, como se fosse ele o rei. Uma vez em Compostela, deixou-se conhecer e, então, foi festejado,  tanto no cabido da Sé, como pelos governadores da cidade da cidade e fidalgos que nela moravam. Paz e paz e era tempo de fazerem um brinde a ela. Pena que não havia ainda vinho fino do Douro, mas a realeza e nobreza sabiam muito bem como festejar nestas ocasiões.

A apresentação deste livro aconteceu em frente à Casa dos Marqueses e foi o primeiro evento na Avenida «restaurada», se nos é permitido  utilizar o termo, que de restauração os marqueses futuros têm péssimas recordações ou não têm, porque perderam a cabeça, pelas casos e acasos conhecidos, ainda que não totalmente desvendados.  Mas não foi destes acontecimentos fatídicos que se falou naquela noite fresca.

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