Do postigo à esplanada: bandos de pardais à solta … no Pioledo

Por: Ribeiro Aires

A luz, que o sol trazia no seu colo e que aparecia no recorte do horizonte, lá para trás da Senhora da  Pena, anunciava uma segunda feira da ressurreição gloriosa, como o dia anterior o tinha sido. Os pardais irrequietos ansiavam pelo toque da alvorada para, em bando, pipilando, darem azo à sua satisfação, para não dizer alegria ou euforia. O concerto já se ouvia, no prelúdio da aurora. Ensaio certamente, porque o festival começaria dentro de momentos e com actuação ininterrupta durante aquele dia e nos dias que se seguiriam, porque o tempo não tem consciência de ser tempo. A festa, limitada é certa, ia começar. Viva! O decreto governamental permitia dar azo a esta liberdade de voar, após tanta proibição. Fora-se o bebericar ao postigo, viva a esplanada! Ainda não era tudo cor-de-rosa. Afinal só se podiam juntar  quatro pardais em cada  poleiro. Mas já era bom. Sempre a pardalada podia estar frente a frente a contar assobios antigos, ritmos novos, melodias dos dias proibidos, enquanto se dava uma bicada numas sementinhas torradas ou se punha o bico em líquidos tão desejados. Era uma beleza regressar o convívio dos pardais amigos, tão afastados que tinham estado, por culpa de sagaz, obscuro, invisível ser ou lá o que fosse, pérfido parasita incapaz de viver autonomamente, mas só satisfeito a viver no corpo dos outros, não para gozar ele próprio a vida, instalando-se comodamente em sofá,  mas só com o plano diabólico de destruir quem o alimentava, para aí  crescer, engordar  até acrescentar apêndices de coroa  mortífera. Realmente, pode dizer-se, com propriedade, que é um palerma cínico.

Pela cidade, pelas cidades, era grande o entusiasmo. Então, no nossa, ali, no Pioledo, no topo norte da «bila», pardais e pardalocas eram aos montes, naquela esplanada comprida, cheia de poleiros vermelhos, como se estivessem na Costa da Caparica, Albufeira, Oura ou Vilamoura, que em Vila do Conde, na Póvoa, Ofir ou Viana o ar ainda estava muito fresco.

 Aquela pardalada do Pioledo fazia mesmo jus à nova liberdade que não o era tanto como interpretava. Juntavam-se em bando, livres. Ali têm estado, estes passarinhos, com ares de passarões, sem medo de ouvir dizer: “olha qu’o bicho te vai pegá(r)». Com vozes de tuna, cantavam e bebericavam, bebericavam e cantavam, livres, libérrimos. E lá iam pedindo, assim se ouvia, em alto pio:

– sementes de cevada, frita;

– larvas de minhocas  de cebolada;

– caracóis  guisados, com molho de girassol;

– formigas de escabeche;

– espetadas de grilo com ananás.

 Os raios solares reflectiam a alegria que jorrava daqueles biquinhos formosos.

– Afinal a vida é bela desde que voemos da janela – cantarolava uma pardaloca que colorira de vermelho o seu biquinho juvenil. Batia as asas,  para a seguir envolver, liricamente,  o seu pardalito de papinho cheio e miolos desorientados pelos vapores que inspirara.

Havia um conselho que o mestre mocho, há meses, aconselhava, melhor, impunha: asas afastadas e o uso de uma salvaguarda no bico não só por causa do pólen – o amarelo, tão frequente – mas porque a ele poderia ir apegado o tal personagem invisível, causador  da caída de penas em muitas aves, como eles, por exemplo. Mas eles não, nada, nunca  espirravam sequer e a bebida fermentada sempre fora um bom antídoto para todo e qualquer mal. Havia outras aves que esvoaçavam por ali e batiam as asas com mais força em sinal de desacordo e até de protesto, afastando-se.

Esta insensatez e indisciplina acontecia noutros lugares da cidade e do país. Os dias seguintes não foram diferentes. Então, ouviram-se as gralhas que insistiam sobre o perigo de tanto desleixo. E que tanta incúria podia levar a que a pardalada regressasse forçadamente ao ninho. Mas, quem ouvia?

O berbicacho foi quando o mocho falante ordenou: soltem os gatos e os gaviões. Mudou a cantiga: rebéu-béu-pardais ao ninho, em fila, já. Acabou o trino.

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