Então, e eu Diogo Cão?

Opinião

– Pssst! Pssst! Eh! Pssst! Pssst! Vª Senhoria, tem a delicadeza de me escutar? –  protestava ele depois de desde há horas clamar por um pouco de atenção. Como sempre, ninguém olhava para ele e se olhavam  não o viam.  –  Conho, estas árvores que  me ladeiam à esquerda e à direita são nefastas para a minha imagem. Se alguém olha para aqui, confundem-me com elas tão obscuras fazem a minha existência. O público pode dizer que me defendem, que me dão sombra. Mas só eu conheço o esquecimento  de mim, de como têm feito da minha vida uma  inutilidade. – Psst! Psst!  – voltava ele. – A excelsa dama, que tão lindos olhos tem, pode dar-me um instante  da sua atenção? – A senhora de cabelos doirados que por ali passava parece ter ouvido um sussurro, uma voz estranha, com se lhe algo lhe tivesse soprado  ao ouvido. Parou, no meio do arruamento que rasgava a praça a meio. Olhou para a direita. – A excelsa senhora podia dizer-me o que está a passar-se nesta avenida  que tem  o nome de um dos mais queridos reis portugueses, o construtor primeiro desta vila e naquela escola  que  hoje tem o nome do santo chaveiro?

A senhora loira de olhos lindos ia sufocando de medo  quando se apercebeu que a voz que ouvia vinha da estátua de Diogo Cão. Cambaleou. Um suor frio tomou conta do seu corpo. Não podia crer. Estaria a ficar louca?, perguntou-se. Olhou à volta. Estava sozinha. As pernas tremiam-lhe. Sentia-se morrer.

– Não se preocupe, senhora. Não está louca. Garanto-lhe. Passa aqui tantas vezes!

Especada, atónita, Berengária Afonso, assim se chamava, não sabia o que dizer nem o que fazer. Lembrou-se da pergunta que a estátua fizera e respondeu, na ânsia de rapidamente fugir dali. Não queria nada com almas penadas – Estão a requalificar a avenida e a escola.

– Isso significa o quê?

– Não sei bem. A Escola tem mais de 50 anos, está velha, vão recuperá-la.

– Eu estou aqui há mais tempo, catano.

– Não sabia. Ali acima estão a rebentar com o passeio. Ninguém sabe o que vão fazer. Se calhar, alargam os passeios, estreitam a rua. Os peões passam a andar no alcatrão e os carros nos passeios.

– Rebentar? Ah! Eu conheço. Conheço o rebentar das ondas na praia e no costado dos navios que eu comandei… Saudades que eu tenho daqueles dias!

– A falar em ondas, a cidade está em requalificação. Olhe, aqui perto foi a rua de Santo António, mais lá em baixo é a Avenida Carvalho Araújo…

– Ai! Não me fale desse.

– Mas porquê? É o nosso herói da Grande Guerra! O nosso emblema.

– Essa avenida devia ter o meu nome. Vivi antes dele. Fui figura principal antes dele.

– Ora agora!

– Quem descobriu a foz do Zaire, quem foi? Não aprendeu isso nos livros de História não. E não está lá a casa onde nasci?

– Nasceu? Tem a certeza?

– Certeza? Acha que eu me lembro do dia do meu nascimento? Só sei que dizem que sim. E eu tenho de acreditar. E não fazem finca-pé disso para o que lhes interessa? Logo, pareço ser mais vila-realense, não? Aquele outro nasceu no Porto.

– Por mero caso. Ficou célebre no pais inteiro como o marinheiro que no mar dos Açores…

– Marinheiro? Marinheiro? Marinheiro fui eu. Açores? Eu andei pela costa africana a desvendar o desconhecido, a mando de D. João II. Bem. Não me queria lembrar dele. Se me deu fama, também me deu vitupério. Mas adiante. A minha zanga…

– A sua zanga? Uma estátua zanga-se?

–  E porque não? Se fiquei mal com el-rei, o Príncipe Perfeito, mais zangado estou com os meus conterrâneos.

– Não percebo  por que razão.

– Colocaram-me aqui, olvidado por todos. Já viu. Segundo me diz vão embelezar a avenida do outro  e eu? Alguém diz que vai requalificar esta praça?

– Lembraram-se de si. Sempre lhe fizeram esta estátua, muito digna, mesmo. Não fosse Vila Real, quem o recordaria? Deram o seu nome a uma escola, cujo grupo desportivo leva o seu nome a todo o país. Conforme-se. A vida não é como nós queremos.

– Está bem. Olhe, o anterior presidente da Câmara, já falecido, prometeu que ia modernizar este espaço, em função do meu valor, da minha honra e da minha dignidade. Mas o que aconteceu? Nada. Nadíssima. Olho para mim e vejo-me mais preto que os negros, do Zaire, mandei a D. João II. Olho à minha frente e o que vejo? Erva, só erva. Nem um canteirinho com flores. Nem um… Os pássaros cagam em cima de mim.

– Esses cagam em todos, sejam plebeus, heróis, reis ou rainhas, presidentes da câmara, vereadores… Talvez um dia se lembrem de si e o requalifiquem, lhe lavem a cara e já agora… os pés. Merece isso. Mas enquanto houver pombos e pardais re-be-beu ao ninho…

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