Estátua de sal

E um anjo disse-lhe (a Lot):

“Salva-te, se queres conservar a tua vida.

Não olhes para trás, nem te detenhas em parte alguma.

 (…) A mulher de Lot que tinha olhado para trás,

ficou transformada numa estátua de sal (Génesis, 19).

 Hoje, vou “dar uma de filósofo”, não sabendo sequer se o que começo a escrever tem alguma filosofia ou se é mais uma forma de dizer, uma maneira de começar esta crónica, esperando que nela surja alguma ideia que valha a pena ser lida.

O ano, como o medimos, está prestes a fechar o seu círculo. Morrendo deixa, como todos, passa à História, deixando  a sua gravação na mente de cada um de nós.  E quem de nós quer olhar para trás, para todos estes meses que nos acrescentaram tempo à nossa vida, vivendo-a, mas encurtando-a ao mesmo tempo? Os dias, os meses o ano (os anos se quiserem) nunca são iguais para todos. Não é preciso dizê-lo. A vida é boa para uns, má ou péssima para outros. Uns têm dias de glória, outros só acumulam desapontamentos, angústias, tristezas e dores.  Adotando o tom moralista, às vezes, é oportuno ou importante olhar para trás para podermos seguir em frente. Como não fazemos tudo bem, será sempre conveniente reconhecermos erros do dia a dia para repensarmos atitudes e  rudezas a fim de alisarmos o caminho que vamos tendo adiante. 

Quem é que quer olhar para trás? Certamente só os felizes. E quem é feliz hoje? E o que é ser feliz?  Do ser feliz,  já muitos livros foram escritos sobre o assunto. O melhor é cada um dar a sua própria resposta. É a mais certeira. Volto à questão: quem é que quer olhar para trás? Não sei se a mulher de Lot era feliz em Sodoma. Em tempo de desgraça preferiu olhar para trás.  Não seguiu em frente.  E porque olharia para trás?

Dizem que olhei para trás curiosa.

Mas quem sabe eu também tinha outras razões.

Olhei para trás de pena pela tigela de prata.

Por distração – amarrando a tira da sandália.

Para não olhar mais para a nuca virtuosa

do meu marido Lot.

Pela súbita certeza de que se eu morresse

ele nem diminuiria o passo.

Pela desobediência dos mansos.

Alerta à perseguição.

Afetada pelo silêncio, na esperança de Deus ter mudado de ideia. (extrato do poema de  Maria Wislawa Anna Szyborsska, escritora polaca).

Há um dito popular que diz “para trás… Ah! Todos sabem completar as reticências.  Com dois anos de pandemia às costas, todos queríamos aliviar o peso, mas como não podemos amenizar tal carga, tal desperdício de vida, o melhor é olharmos para a frente e lá está o Natal. É a pensar nele que o povo se tem aliviado dos constrangimentos e tem espantado o medo desde Outubro.  Em Portugal, pelo menos, o Natal este ano antecipou-se ao Outono. Eram ainda os dias quentes e já de ouvia o jingle bells, nos centros comerciais, onde o Natal é outra coisa. Um dia começará em Setembro, no regresso de férias… Se  “Natal é quando o homem quiser”…   Não sei se  as prendas são a dobrar ou não, porque no ano passado o Natal foi raptado, mas que o espirito de Natal, o tal, o dos centros comerciais  está com cores vivas, não há dúvida.

 “Quem quer olhar para trás?” Os felizes e prudentes sacudiram a pandemia, como fossem pingos de chuva que caíram na gola do casaco ou do vestido. Os políticos que ganharam as autárquicas, os que conseguiram emprego, os que tiveram boas colheitas das suas produções, os que realizaram bons negócio, os que encontraram o amor, os que publicaram livros, os que voltaram à estrada cantando novas músicas, os que representaram nos palcos novas peças,  os que recuperaram rendimentos, os que foram solidários com os seus semelhantes, os que ultrapassaram problemas graves de saúde  podem olharam para trás sem correrem o risco de ficarem petrificados  em estátuas de sal.

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