Filhos dos homens do douro

Por: Manuel Igreja

Quem não tiver nascido ontem, ainda se lembrará bem da relação de propriedade que havia há coisa de um ou duas décadas, entre os que possuíam terra que se visse neste nosso Douro, e por aqui propriamente não vivesse.

Pelo processo ancestral de herança, as quintas na maioria das vezes iam ter à mão de pessoas há muito ausentes em Lisboa ou no Porto. As visitas ao torrão natal aconteciam uma ou duas vezes no ano, e por cá, os caseiros tocavam os assuntos quantas vezes a seu bel prazer. 

As mais valias do produto eram de tal monta, que o negócio dava para tudo e para mais alguma coisa, e nesse contexto não vinha mal nenhum ao mundo pelo facto da vinha não ver o dono todos os dias, conforme diziam os antigos que devia ver.

Ainda que eventualmente possa ser em muitos casos injusto, futuro poder dizer que o apego à terra e suas coisas por parte dos seus detentores, não seria então e por isso, coisa por aí além.

Mas, e para bem de todos, as coisas alteraram-se sobremaneira nos últimos tempos. Por gosto, por força das circunstâncias, por moda se calhar, e por muitos outros motivos, as propriedades passaram a merecer mais atenção dos ausentes, e as novas gerações começaram a tomar a responsabilidade do leme. As visitas passaram a ser muito mais assíduas, e muitos regressos passaram a ser definitivos.   

Resultou daqui em parte, o aparecimento de uma nova mentalidade, de uma nova maneira de amanhar as terras, e uma muito maior modernidade na arte de espremer vinho de superior qualidade, dos fraguedos que nos rodeiam nesta região cada vez mais importante.

Ainda no ano passado, há dias, pude deliciadamente apreciar numa vindima, um grupo de rapazes e de raparigas com idades a rondar os vinte, a trabalharem arduamente, com afinco, com gosto, e com alegria, nas tarefas de cortar e acartar uvas.

Este grupo de malta nova, todos estudantes, são filhos de gente com bens ao luar, na sua na sua maioria podemos enquadrar no estrato social dos proprietários que aludi atrás. 

São por isso, aquilo a que muito bem se pode chamar de “filhos dos Homens do Douro” aqueles moços e aquelas moças, e são uns verdadeiros e assumidos durienses de provas dadas.

São eles e muitos outros de igual postura, que nestes tempos de descrença e de desinquietação, nos podem fazer acreditar que mais tarde, lá para daqui a uns anos, não muitos, o Douro enquanto terra de gente que sabe o que quer, tem o seu espaço 

e o seu futuro assegurado. Poderá deixar de ser a galinha dos ovos de ouro, para os que de longe lhe espreitam as riquezas, mas estou certo, será uma terra que sabe premiar o esforço dos seus filhos.

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