Flores e acepipes


Por: João Madureira

Pessoa limpa pensa limpo. Pensar mal é fácil. O contrário é que é difícil.

Como diz o meu amigo Riobaldo, a gente vive para se desiludir e desmisturar. Afinal, como é que nós entendemos as coisas? Depende da maneira como as olhamos. O fim das coisas boas está sempre perto. Por vezes é de onde menos se espera que o pior vem.

 O saber e o sucesso de uns não pode ser a desgraça de outros.

A verdade é que hoje as pessoas tratam-se umas às outras como se fossem brinquedos, móveis ou automóveis. E acham que estão a dar o máximo de si quanto a respeito e carinho.

A verdade é que as pessoas já não se divertem com a caridade. Muitas nem sabem o que isso é. Algumas, as que têm mais memória induzida, pensam que antes fosse assim. Que assim é que era.

As pessoas andam muito abstratas. Fazem que ouvem, mas não ouvem, nem leem, nem meditam, nem nada.

A sociedade atual parece uma homilia cristã: tudo são mutações, aparições e desaparições. Só as cores é que não condizem com o retrocesso. As cores de agora não têm época. É tudo ao deus-dará.

A maioria das mulheres maduras, quando vistas ao longe, parecem Vénus louras. Quanto mais ao longe se observam mais parecem.

Já as loiras mais novas, uns dias parecem a Marilyn Monroe e no dia seguinte assemelham-se ao Marilyn Mason.

O maior encanto das conversas atuais é a sua imprecisão. Nada parece o que é.

Por vezes, sinto uma sensação estranha. Noutras ocasiões faço um esforço enorme para não me rir.

Comecei a dar valor a quem revela um verdadeiro gosto para fazer arranjos de flores em taças e jarras. Pois não é nada fácil cruzar violetas amarelas com os estranhos lírios e as pequenas orquídeas brancas e enlaçá-las com ramos verdes. Essas escolhas são o resultado de muito cuidado e reflexão.

As floristas são mais lestas a fazer arranjos de tulipas, goivos e narcisos. A gente de gosto comum gosta, sobretudo, de combinar as flores de jardim.

O amor pensadamente burguês é bonito porque consegue sobreviver com beijos e queijos.

Por vezes, o inverno é ameno. Galanteios e ilusões fazem parte da vida social. Os bons negociantes são aqueles que compram com possibilidade de devolução.

Por vezes é o cheiro a gardénias que torna a música reconhecível.

Há pessoas que depois de retirarem a máscara com que se disfarçam exibem logo outra, não vá a verdade traí-las. 

Claro que é bom ter passado, como bem nos lembram os seus apaniguados. Claro que também é bom ter presente, como dizem os que vivem dele. Mas o verdadeiramente importante é ter futuro, pois o presente já é passado.

A nossa democracia cada vez se assemelha mais a um louva-a-deus.

Para mal dos nossos pecados, atualmente é vulgar apelidar a estupidez de honestidade. Uns vão descrendo e outros já deixaram de acreditar. Os costumes são regionais. Sempre.

O que é ridículo não é a propaganda dos feitos e ditos. O que verdadeiramente irrita e amesquinha é a propaganda dessa propaganda. É esse tipo de atitude que tem procrastinado o nosso futuro. 

Já devia chegar de política do croquete, do sorriso cordial e da filigrana barata.

O problema não reside na dúvida democrática mas sim no facto de já quase ninguém acreditar nela, nem nas suas qualidades e potencialidades. Isso é que é dramático. Até os apelidados de verdadeiros democratas desconfiam da possibilidade da sua renovação.

Continua a mudar-se alguma coisa. Isso é indesmentível, mas parece que é para tudo ficar na mesma.

Fica-se com a impressão de que as questões são cozinhadas para se adaptarem às respostas já pensadas. Por isso é que que efeitos são geralmente fracos ou deslocados. Os interesses mesquinhos de alguns impõem-se aos verdadeiros interesses e necessidades de todos.

A verdade é que temos de nos deixar dessa treta conservadora e decadente do fatalismo português e libertar-nos da tal alma provinciana que resulta sempre da nossa tendência para a contemplação. E também dessa ideia peregrina da nossa piedade instintiva e da pobreza aprazível.

Nem a pobreza é feliz e redentora, nem o destino está marcado.

O problema reside sempre nos tais dos acepipes.

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