Humildade e liderança

Por: AF Caseiro Marques


Na Marinha aprendi, tal como todos os que ali serviram e servem, que num navio o Comandante é a segunda pessoa, abaixo de Deus. Por aqui se pode ver o grau de responsabilidade daquele a quem é entregue a tarefa importantíssima de conduzir e levar a bom porto a nau que lhe estiver confiada, através da atenção prestada aos sinais que lhe chegam pelas mais diversas formas, observando cuidadosamente cada situação, tendo sempre em atenção o ambiente e buscando de forma inteligente as melhores soluções, designadamente para evitar as borrascas e aplicando todos os seus conhecimentos com vista aos resultados imprescindíveis a salvar a nau e a tripulação.

E também aprendi que nem sempre um bom Sargento, uma vez promovido, dá origem a um bom oficial. Ou seja, não é bom oficial e Comandante quem quer. Há carismas que uns possuem e outros não. E os líderes carismáticos sempre foram em número reduzido ao longo da história. Isto porque há carismas que ou se possuem ou não. Não é possível comprar carismas nas Universidades, diria mesmo em qualquer tipo de escola, muito menos nos Supermercados, por mais dinheiro ou poder que alguém possua.

Por outro lado, um líder, que até pode não ser carismático, mas não deixa de ser líder, tem de exibir características que o possam classificar como tal. E hoje o que vemos é pessoas que ascendem a lugares de liderança sem possuírem as características mínimas para governarem seja que instituição for. Muito menos nos governos das nações.

Mas a verdade é que diariamente vemos pessoas a tomar decisões, por vezes muito importantes para o nosso futuro, sem cuidarem das consequências. E isso tanto acontece a nível dos Governos, como das demais instituições públicas e privadas.

Desde logo, um líder tem de mostrar visão e pensamento estratégico. E o que vemos nos nossos líderes é que muitas vezes não têm visão e muito menos pensamento estratégico. Não conseguem perscrutar o futuro, nem sabem discernir quais as melhores opções a tomar para o sucesso da entidade sob a sua direcção.

Quem não tiver uma grande capacidade de se relacionar e ouvir os seus subordinados ou iguais, não será capaz de, sozinho, levar o seu barco a bom porto. As possibilidades de errar, cometer erros grosseiros aumenta na exacta medida em que decidindo apenas pela sua cabeça, não consiga abranger toda a envolvente, originando graves prejuízos ou riscos para a salvação das pessoas sob a sua responsabilidade.

Por outro lado, quem não for dotado de bom senso, não conseguirá unir as pessoas sob as suas ordens, formando uma verdadeira equipa, e congregar vontades, estratégias, definir tácticas, soluções e medidas de ataque aos problemas, apesar das diferentes sensibilidades existentes entre os diferentes elementos da equipa de Comando. Os conflitos e a sua gestão roubarão demasiado tempo a quem tem por obrigação aplicar esse tempo na busca de soluções que optimizem os resultados da acção. E no estudo das soluções o líder deve buscar sempre a excelência. Não pode satisfazer-se com medidas que se venham a revelar medíocres ou que sejam tomadas a destempo.

Mas o líder tem igualmente de possuir um enorme sentido de justiça para que, em todas as situações, aja com congruência. Não há coisa pior do que uma equipa ter um chefe que espalha a confusão na sua actuação, que não é justo para com todos os elementos e profere condenações incongruentes e pior ainda não assume os seus erros, atirando para os seus subordinados as culpas pelas suas falhas. Os exemplos podem ser seguidos em directo nas televisões e não só.

Para completar o quadro, seguindo o ensinamento do Papa Francisco, estas características podem traduzir-se por: Humildade, inclusão no grupo, avaliação, inovação, inclusão, derrubar barreiras, pragmatismo, deslocalização pessoal, serviço activo, inconformidade, enfrentar problemas e abertura aos outros.

Acabei de enumerar as características gerais que fazem com que um chefe, um verdadeiro líder se transforme num elemento imprescindível, na condução de qualquer nau, à semelhança do Comandante do navio, embora sempre abaixo de Deus, que está lá, assim o cremos, para gerir aquilo que ao Comandante, por vezes, está vedado saber e muito menos adivinhar que poderá acontecer. É o acaso que está sempre presente e que ninguém pode controlar. E só quem nunca comandou ou teve a responsabilidade de decidir não se apercebeu da importância do acaso.

E se o Comandante possuir a generalidade destas características será com certeza reconhecido como sendo competente para comandar seja que barco for.

Quando estas características falham, porque quem tem funções de mando simplesmente não as possui, a sua condução do navio revela-se desastrosa, por incompetência para o cargo.

Se o Comandante é um déspota mas revela competência, podem tolerar-se umas vergastadas, quando são contestadas as suas ordens, porque apesar das cicatrizes provocadas pelo chicote consegue chegar-se ao destino.

Mas quando o Comandante for incompetente, se ainda por cima também for um déspota e o acaso não o favorecer, o melhor é os marinheiros terem a coragem de o atirar pela borda fora. Pode ser que, com essa actuação drástica, possam evitar o desastre.

Em Portugal raramente isso aconteceu. Na maioria das vezes falta a coragem e o discernimento para se proceder desse modo. Com grave prejuízo para o país e para as instituições.

Caveant Consules ne quid respublica detrimenti capiat

 Que os cônsules se acautelem a fim de que a república não sofra nenhum dano

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