In Memoriam: António Passos Coelho

Ocorreu, no passado dia 31 de Maio, o aniversário do nascimento deste ilustre e digno vila-realense. Tempo oportuno para o relembrar. E, igualmente, para deixar umas quantas e singelas notas sobre uma das poucas personalidades que me foi dado conhecer, nesta terra que adoptei para viver há quase quarenta anos, com enorme e insofismável categoria, para me merecer uma consideração que jamais se desvanecerá da minha memória e da minha vida.

Não desbarato facilmente o meu tempo e as minhas energias a enaltecer, seja por escrito seja verbalmente, as qualidades de quem se cruzou comigo nos caminhos, por vezes tortuosos, desta vida. A não ser relativamente a quem, no meu entendimento, o mereça muito. Mantenho a minha independência para abordar os assuntos e escrever apenas sobre aquelas pessoas das quais guardo memórias positivas, pelos seus comportamentos e pelas suas atitudes éticas, morais e sociais, que me tenham marcado indelevelmente. Felizmente, são em bom número, embora reduzido, se tiver em consideração os milhares de pessoas com quem, profissionalmente ou socialmente, fui contactando ao longo das várias e felizes dezenas de anos que levo de vida.

O Dr. Passos Coelho foi uma dessas pessoas. Repito, um Homem com muita categoria, qualidade hoje arredia, mas que ele revelou em tudo quanto fez.

Contactei pela primeira vez com o Dr. Passos Coelho, tinha eu chegado a Vila Real havia pouco tempo, aconselhado por um amigo, por causa de uns arreliadores problemas de saúde que se vieram a revelar inofensivos, embora causadores de certos incómodos, sequelas das andanças pela guerra, sofrendo as condições climatéricas e os rigores da vida militar, em zonas húmidas e frias.

A sobriedade do seu consultório com aquela máquina gigante, que já se considerava, na altura, desactualizada, fora de uso, mas que ainda revelava a existência de problemas pulmonares e outros achaques e que ele, sozinho, manobrava, de forma expedita e sábia, obtendo o resultado de imediato. Era o fruto da sua experiência múltipla, como médico e paciente, por terras da beirã estância sanatorial do Caramulo, ainda antes de ter terminado o seu curso de Medicina.

A partir desse dia, e fruto da nossa conversa sobre livros e sobre a escrita que se estabeleceu de imediato, nunca mais a nossa relação deixou de se fortalecer.

Foi assim que, em 1996, quando deixei as minhas funções na Câmara de Vila Real, onde permaneci dois anos e meio, como Vereador Substituto do Presidente da Câmara, apesar das circunstâncias políticas em que se verificou a minha saída do governo autárquico, naquela altura, não hesitou em aceitar o meu convite, para apresentar o meu primeiro livro “Crónicas com Canela, Sal e Pimenta”. A sua independência, que revelou sempre ao longo da sua vida – que a sua enorme categoria lhe proporcionava – permitiu-lhe, sem tergiversar, aceitar esse convite.

A partir dessa altura, sempre que um de nós publicava um livro, efectuava-se a permuta respectiva.

Não posso esquecer a última vez que, já com dificuldade em se deslocar, teve o gesto sublime de subir o elevador para me entregar, pessoalmente, o seu último livro, no meu escritório, no Largo do Pelourinho. Assim como não esqueço as palavras elogiosas que me dirigiu, com total sinceridade e abertura, bem como quase em jeito de despedida, os votos que me dispensou para que eu continuasse a escrever, incentivando-me, por essa forma, a intervir na vida pública da cidade.

As tribulações que a sua saúde e de outros familiares lhe trouxeram nunca puseram em causa a sua boa disposição. Nunca lhe ouvi um queixume ou manifestações de revolta, qual Job bíblico, preservando a sua privacidade e revelando um espírito cristão, profético e de testemunho inigualável.

Deliciava-me com as suas conversas, normalmente em plena rua, durante as quais desabafava sobre as questões políticas, sociais e humanas, quantas vezes entremeadas com palavras duras, críticas e sugestões, com um ou outro termo vernáculo à mistura. Corriam-lhe no corpo as suas preocupações com a verdade dos factos, que comentava, com veemência e, por vezes, com alguma acidez, como é apanágio de quem não gosta da mentira e não aprecia a hipocrisia e a vaidade.

Os seus livros revelam com cristalina lucidez e verdade o seu conhecimento sobre a condição humana, não renegando a suas raízes transmontanas e de um modo especial a sua terra de naturalidade.

A sua experiência como médico e gestor e os conhecimentos que possuía, nomeadamente na sua área, a pneumotisiologia, levaram a que tivesse sido chamado a desempenhar cargos de relevo, quer em Portugal, quer em Angola, tendo sido chamado a desempenhar o cargo de Presidente da Comissão Instaladora do novo Hospital de Vila Real e seu Director Clínico.

Na área política, em que sempre teve uma voz activa, desempenhou durante vários anos, entre outros, o cargo de Presidente da Assembleia Municipal de Vila Real, em cujo exercício revelou as suas qualidades de liderança e mereceu a admiração dos representantes de todos os partidos, pelo seu verdadeiro espírito de democrata e de tolerância.

Os seus livros, de poesia, contos e romances revelaram uma faceta comum a muitos médicos, dado o contacto permanente com muitos pacientes, que sofrem na carne as vicissitudes da vida e as ameaças de outrem, bem como os males conhecidos e desconhecidos, demonstram a sua preocupação com o bem-estar das pessoas. E revelam também um talento ímpar para a escrita, digno de grandes escritores, que outros tentam exibir, sem, contudo, comprovarem talento igual.

Aliás, o Dr. Passos Coelho nunca se colocou em bicos de pés, nunca procurou prémios e prebendas. Pode dizer-se que, pelo seu talento e pelas suas qualidades de trabalho, no fundo, pelos seus méritos, desenvolvidos em favor da comunidade vila-realense, merece ser publicamente reconhecido. Dele se pode ainda dizer que constituiu um grande e valioso exemplo de respeito pelos valores éticos, morais e cívicos, como cidadão e como profissional.

Muito mais haveria a dizer sobre este ilustre vila-realense, que não cabe neste espaço e que, a mim, humilde escrevinhador, faltam qualidades para o fazer.

Vila Real, Junho de 2021

António Francisco Caseiro Marques

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