Miguel Torga Negrilho

Por: Ribeiro Aires

O Negrilho.

O Negrilho nasceu e cresceu, mandavam os reis há muito nesta terra. No século XX, um homem, um só homem fez dele um senhor do Largo do Eirô,  sem cobrar vintém fosse a quer fosse, nobre ou plebeu. Foi o  Adolfo,  o Adolfinho,  que ele viu crescer desde menino, assim como a centenas de outros rapazes e raparigas. Ainda rapazinho, aquele menino saiu da terra, andou pelo mundo, estudou, fez-se médico, mas não esqueceu as raízes, como ele negrilho não se esquecia das suas, fonte da sua vida, alegria da sua copa ampla com folhagem ovada densa e de ramos finos. Quando ali regressava o Adolfinho, era assim que gostava de a ele se referir, fazia-lhe sempre uma visita demorada. Encostado a ele, à sua casca grossa, confidenciava-lhe momentos da sua vida, em Coimbra, onde estabelecera consultório, para tratar de doenças da garganta, vejam só, logo da garganta. E sorria. Linguareiros era o que mais havia no mundo. Ele bem os ouvia, no Eirô, mas cala-te boca, não vá alguém sentir-se ofendido e descarregar nele. Um dia,  confidenciou-lhe que adotara um outro nome.

–  Que nome? – perguntou.

– Miguel Torga.

– Porquê?  Não gostas do teu nome de batismo?

–  Gosto.

– Então, por quê?

– Escrevo contos e poemas – respondeu Adolfo. – Quando o faço, encarno outra  pessoa.

– Não sei se percebo ou devo perceber – disse-lhe.

– Já pensaste que sou mais tu? Sinto-me mais raiz, Torga,  mais ligado à terra, de onde retiro a seiva do mundo – sussurrou-lhe.

Um sopro de vento agitou as folhas, sinal de que ao Negrilho agradaram aquelas palavras. Um outro ano (1956), o agora Miguel Torga voltou à conversa com ele.

– Sabes, escrevi um poema.

– Se és poeta…

– Mas este é muito especial. Queres ouvir? – O Negrilho anuiu.

“A terra onde nasci há um só poeta.

Os meus versos são folhas dos seus ramos.

Quando chego de longe e conversamos,

É ele que me revela o mundo visitado.

Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,

E a luz do sol aceso ou apagado

É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação. (…)

O Negrilho  que ouviu o poema até ao fim, ficou emocionado.

– Abraça-me – pediu.

E este foi um enlace para a vida.

O poema foi celebrizado. Professores falavam dele aos alunos com entusiasmo. Visitavam-no, ali, no Eirô, onde liam poemas e outros textos do «irmão» Miguel Torga. Não faltavam literatos  a discursar, olhando para os seus braços, alguns já secos, outros a murchar. Centenas de anos de vida deixavam-no nu, pouco a pouco. Como o seu cantor, que já  entregara a alma ao Criador, foi morrendo, com sucessivas amputações. Até que… tudo se acabou, já não se sentia  mais ele. Deixara de ser uma instituição em S. Martinho de Anta.

– Este é que é o Negrilho? Pois olha…

Sentia a desilusão de quem nunca o conhecera na sua máxima ou mesmo meia vitalidade. Deixara de ter interesse. Ouvindo isto, da  tumba, doía-lhe. Mas eis que, inesperadamente,  no seu 113 aniversário  do nascimento, lhe rasgaram as últimas carnes, secas sim, dando-lhe nova vida. Vida? Do que dele restava fizeram o retrato do «irmão»  Torga. Agora, uns hão-de dizer: “ então o Negrilho é o Miguel Torga?” E  outros comentarão: o Miguel Torga é o Negrilho?  “Não sei que dizer. Tem graça a desgraça – pensou –  de agora em diante vivemos um no outro, de ele ser eu e de eu ser ele? Morri?”

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