Não há pai para o coxo…

Por: João Madureira

Foi com o Zeca Afonso que me desenganei e perdi completamente as esperanças de atribuir aos escritores e cantores qualquer papel providencial. Uma vez referiu que se sentia mais como uma Supico Pinto (criadora e dirigente do Movimento Nacional Feminino, no tempo do Estado Novo) de esquerda a distribuir engodos. “Uma vez na Marinha Grande estava eu a cantar ‘Ó meu Portugal tão lindo/ó meu Portugal tão belo/metade é Jorge de Brito/metade é Jorge de Melo’, aparece ao meu lado um espontâneo coxo que à cadência da música atirava a perna incrivelmente longe e gritava: ‘Não há pai para o coxo/não há pai para o coxo.’”

Segundo a opinião do Zeca, que eu também partilho, o país real, antes do 25 de Abril, era, afinal, bem diferente do país apregoado e cantado.

“Antes do 25 de Abril, nós conhecíamos, de norte a sul do país, as pessoas que se atreviam a lutar realmente contra o regime, e eram de facto muito menos do que se gostava de dizer. Alguns intelectuais afirmam ainda hoje que a nossa geração, a minha geração, foi muito castigada, mas eu não penso isso. Mesmo a repressão foi adaptada aos bons costumes deste povo. Não se mata um governante em Portugal há 75 anos”, confessava o Zeca Afonso em 1985. Ora isso diz tudo, pois o nosso regime fascista foi o mais longo da História Contemporânea.

Mesmo que não queiramos, por aqui envelhecemos a ser razoáveis. Tal procedimento deixa de ser aprazível e educado para se transformar numa camisa de forças. Alguns pensam-se artistas que envelhecem a cismar na sua obra em que depositam toda a fé e que nunca acabarão por concretizar. Os loucos precisam de liberdade. Por alguma razão, o fascismo português foi deliberadamente conservador e provinciano.

Pus-me agora a ler os evangelhos sinópticos e continuo baralhado. As expressões populares do cristianismo, as suas representações e os hinos natalícios misturam-se de tal maneira que só posso achar graça. A graça dos inocentes e dos descrentes em tanta meninice. O Menino Jesus é adorado tanto por pastores (apenas em Lucas 2,8 – 20), como por sábios do Oriente (apenas em Mateus 2,1 – 12). Em Mateus é veiculada a informação de que Maria e José vivem em Belém, onde possuem uma casa, mudando-se mais tarde para Nazaré. Já em Lucas, o casal vive em Nazaré e viaja até Belém, por causa do recenseamento.

Existem também discrepâncias assinaláveis nos relatos do julgamento de Jesus, pois Lucas inclui um julgamento perante Herodes, que não existe em Mateus e Marcos.

Uma coisa já sabemos: os escritores não são gente de confiança. Nem os mais antigos, nem os outros.

O celebrado Charles Baudelaire avisou que o culto da beleza desaparece quando não há aristocracia. Gustave Flaubert escreveu que o ensino laico, gratuito e obrigatório apenas faria aumentar o número de imbecis. E depois da derrota da Comuna de Paris aconselhou que se acabasse “com o sufrágio universal, que é uma vergonha do espírito humano”.

Armados com a sua razão, os vencedores erigiram a Basílica do Sacré-Coeur, na colina de Montmartre, para agradecerem a Deus a vitória concedida.

O escritor Joseph Conrad escreveu um livro trágico e estranho, intitulado “O Coração das Trevas”, onde Kurtz, nome literário do capitão Léon Rom, distinto oficial das tropas coloniais belgas no Congo, era homem tão distinto que obrigava os nativos a receberem as suas ordens de gatas e a quem chamava de “animais estúpidos”. Na entrada da sua casa, pelo meio das flores do jardim, erguiam-se vinte lanças que completavam a decoração. Em cada uma delas, estava espetada a cabeça de um negro rebelde. E à entrada do seu escritório, entre as flores de outro jardim contíguo, erguia-se uma forca que baloiçava com as refrescantes brisas africanas. Nas suas horas livres, quando não estava a caçar negros ou elefantes, o capitão pintava lindas paisagens a óleo, escrevia poemas e colecionava borboletas.

O celebrado coronel Baden-Powell foi, sobretudo, um intrépido combatente de selvagens africanos. Era habilidoso na nobre arte de seguir os rastos das pegadas alheias e apagar as próprias. Diz a história que o fundador dos escuteiros praticou com êxito a caça de leões, javalis, veados, zulus, asantes e ndebeles. Ficou famosa a batalha que travou contra os ndebeles, na África do Sul. Morreram duzentos e nove negros e um inglês.

Como recordação, o coronel levou o corno que o inimigo soprava para dar o alerta. Esse corno em espiral, do antílope cudo, foi incorporado nas cerimónias dos escuteiros e passou a ser o símbolo dos rapazes e das raparigas que gostam da vida saudável. Foi também um leitor entusiasta do Mein Kampf.

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