Não vai correr bem


Por: Anabela Quelhas

Sinto-me apreensiva, penso que isto não vai correr bem.

Ontem fui ao centro comercial. Escolhi as 10h, horário da abertura para evitar cruzar-me com muita gente. Já não ia lá, desde o início de Junho. A essa hora o estacionamento do piso A já estava quase cheio. Entrei numa loja, desinfectei as mãos à entrada e verifiquei que os provadores estavam encerrados, tendo a funcionária proposto que eu trouxesse a roupa, e experimentasse em casa, com possibilidade de troca e ou devolução. Pareceu-me bem, isso evitaria uma serie de possíveis contágios. Entrei em mais 4 lojas. Ninguém estava na entrada a vigiar a desinfecção das mãos e os procedimentos já não eram iguais, tinham os provadores abertos, era um entra e sai como se não houvesse COVID. Todos pegavam na roupa, vestiam e devolviam aos expositores e depois vinha outro, pegava, repetindo o processo. 

Usei a escada rolante sem nela tocar, ia uma família à minha frente, com duas crianças, uma delas usava a máscara na testa, enquanto passava as mãos no corrimão e a seguir roía as unhas. E eu a manter a distância de segurança.

Na entrada pedestre do centro comercial, verifiquei a cara de enfado de alguns, quando o segurança obrigava ao uso de máscara. 

Um assoava o nariz com lenço de papel que guardava no bolso, virando e revirando a mascara e tocando em vários livros na livraria.

Usei a caixa automática. Não tive onde desinfectar as mãos, antes e depois. Recorri ao meu frasquinho de gel, mas já tive que meter as mãos na carteira para o retirar… não consegui evitar.

Desci, fui ao supermercado, agora já ninguém desinfecta os carrinhos de compras, como há 2 meses. Fui buscar um carrinho sem saber onde tocar, desinfectei as mãos na entrada do supermercado e voltei a por as mãos desinfectadas no carrinho sem desinfecção, e lá fui eu às compras urgentes. Dirigi-me à zona da fruta e feita parva arranjei dois sacos, um para colocar fruta e outro para fazer de luva, para não potenciar um contágio, com as frutas restantes. Dirigi-me às kwatas, e um senhor agarrou 2 kwatas com a mão, meteu uma à boca, e ofereceu outra a um amigo que estava com ele, não lhe agradando o sabor ácido da kwata, rapidamente cuspiu a kwata na mão e como o amigo não quis provar, devolveu a kwata que tinha na mão cuspida, ao cesto de kwatas, que eu pretendia comprar. Senti-me perfeitamente idiota com um plástico a proteger a fruta onde tinha de tocar com a minha mão desinfectada a olhar para esta cena canalha. Estes reis da porcaria, passaram para a zona das uvas provando de todo as qualidades, cuspindo a grainha disfarçadamente. Seguiram-se as peras que foram todas apalpadas para escolher as mais maduras, que acabaram por não comprar. Na caixa, os produtos foram passando, a passadeira não foi desinfectada, e a menina da caixa acabou por confundir as minhas compras, com as compras do consumidor seguinte, apesar de terem sido colocadas afastadas. 

Saí rapidamente do supermercado e dirigi-me a uma grande sapataria. Vi algumas pessoas a experimentar sapatos. Davam um saco para envolver o pé antes de experimentar os sapatos. No fim de experimentar um sapato, tentavam retirar o pé do saco, o saco agarrava-se ao pé, e normalmente retiravam o saco, virando o saco ao contrário. Quando experimentavam o 2º e o 3º sapato, o saco já tinha virado para um lado e outro, espalhando a pegada vírica.

Passei noutro supermercado, aquele que em Maio, obrigava os consumidores a desinfectar as mãos na entrada, assim como distribuíam luvas para que nada ficasse contaminado no interior. O desinfectante estava na entrada, uns desinfectavam, outros não. Junto ao expositor do pão, estavam várias luvas para se utilizar e para não contaminar a pinça para pegar no pão. Mais uma vez, aqui a idiota, a colocar a luva para recolher o pão enquanto uma mulher chegava e sem luvas metia a mão na vitrina experimentando o pão melhor. A surpresa e a luva fizeram-me deixar cair dois ou três sacos do pão vazios ao chão. Não vi onde estava o caixote do lixo. Fui chamar uma funcionária, pedi desculpa e expliquei que tinha deixado cair os sacos. Esperava que a funcionária, apanhasse os sacos e os colocasse no caixote do lixo que eu não tinha encontrado. A funcionária recolheu os sacos do chão e meteu-os no sítio dos sacos que eu julgava imaculados, para os clientes seguintes utilizarem.

A legislação obriga as escolas de condução, que funcionam apenas com adultos, a cumprir um distanciamento mínimo de 2,00m nas suas aulas presenciais. Nas escolas, desde o 1º ao 12º ano de escolaridade, parece que o virús é mais preguiçoso, porque as indicações do Ministério da Educação, definem 1,00m se possível.  

Isto não vai correr bem. A Dra Graça será melhor anunciar aos portugueses, que a partir de agora será cada um por si, cada um que se amanhe, se proteja e reze se souber fazê-lo.

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