Nós e a verdade

Por: João Madureira

Nós não somos gente de amaldiçoar os nossos males nem de buscar cura para eles. Nós deixamos andar. A maioria dos portugueses fica satisfeita com o pouco que a sua sorte lhes dá. O nosso coração costuma ser largo para o amor. 

Nós conhecemos o mal. O nosso mal. Desconhecemos é o remédio. Queremos acreditar que a humildade é uma qualidade adequada a alguém bafejado pela sorte. Afinal, é verdade que ser motivo de inveja aconchega muito o ego. 

É uma ocupação entediante sentir permanentemente ternura por alguém cuja sorte nunca muda. 

É aconselhável seguir os conselhos de quem sabe e comprar produtos nas afamadas lojas de comida saudável. Com os seus almoços protegemo-nos contra a prisão de ventre. Assim como é bom aquecer o espírito com cocktails gelados. 

Não são só as crianças e os adultos que perdem a linha. Mas, para grande pena nossa, os seus cães e gatos estão a seguir-lhes o exemplo.

Conhecemos os senhores pelas maneiras dos seus criados. É através da facilidade com que os criados falam connosco que sabemos o quanto somos aceites pelos senhores. 

A verdade é que os empregados de agora são tão competentes que não necessitam que os patrões lhes deem ordens. 

Trazemos sempre dentro de nós uma pequena, mas detestável, culpa. 

Nos tempos que correm, até para dormir bem é necessário talento. Há pessoas que nos deslumbram com o seu aprumo implacável. Algumas andam tão aprumadas e apertadas que, quando olhamos para elas, somos nós que temos dificuldade em respirar. 

São muitas vezes as pérolas e os diamantes os que nos fazem enveredar por maus caminhos.

É tudo uma questão de sorte. 

A verdade é que nos habituámos uns aos outros. Para o bem e para o mal. 

Até nas pequenas cortesias somos inábeis. É muito difícil arrancar um sorriso democrático à classe trabalhadora. 

Saint-Exupéry disse que para unir o povo dá-se-lhe um castelo para construir. Para o desunir não há nada melhor do que lhe dar pão para repartir. 

Todo o processo político se estabelece segundo a seguinte ordem: o povo aprova o processo político e, depois da aprovação popular, seguem-se as vantagens e os benefícios. Até que chega a altura do indulto, que é um novo processo eleitoral. 

O curioso de tudo isto é que depois de uma surpresa surge sempre a surpresa seguinte. Quando uma termina surge logo outra, para a substituir.

Depois de alguma desilusão temporária, lá voltamos a assinalar no boletim de voto o quadrado certo. A verdade é que o partido pode falhar ao seu eleitor, mas o fiel eleitor é incapaz de trair o seu partido. É necessário elogiar a sua lealdade e a sua paciência. 

O guião é sempre o mesmo: um bom arsenal de boas intenções e repleto de clichés filantrópicos e sentimentais. Até porque o nosso líder é sempre uma pessoa boa e generosa, um bom católico que vai à missa aos domingos, cheio de bons propósitos e um crente na bondade natural do ser humano. Está claro que os mais radicais consideram estes sujeitos como os mais perigosos. 

Os programas políticos são elaborados com base, mais do que na realidade, na verdade. Mas todos sabemos que 50% daquilo tudo é pura mentira. O que verdadeiramente interessa não é o programa corresponder à verdade, mas ser convincente. 

Dizemos interiormente que desta vez vamos fazer o que sempre fizemos para não complicar. Mas nada de compromissos. Para a próxima vamos ser mais exigentes. Mais cheques em branco, não. A verdade é que procuramos sempre evitar complicações inúteis. A nós ninguém nos distrai do essencial. Era o que mais faltava!

A verdade é que quando não há exigências nem compromissos, também não há aborrecimentos. 

A verdade é que quando sentimos um pouco de felicidade pela nossa insistência é nos momentos em que nos separamos um pouco da realidade. 

A verdade é que isso não é nem absentismo nem inatividade. É, apenas, reserva. 

A verdade é que, na maioria de nós, se nota uma certa deterioração física e um secreto desamparo moral. 

Ainda nos custa sair do círculo vicioso do vitimismo e de responsabilizar sempre os outros pelas nossas próprias desgraças.

Nós por cá somos muito de argumentar a realidade recorrendo à ficção. 

Mas continuamos a pensar com clareza. 

Está na hora de voltar a ler “La Zizanie” (Astérix – Goscinny e Uderzo). 

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