O cavalo do Átila: os bárbaros estão a chegar

Por: Manuel Igreja

Era o grito que se ouvia no então Império Romano do Ocidente quando pelos anos quatrocentos da nossa Era, os hunos comandados pelo sanguinário Átila invadiram os territórios mais a Ocidente espalhando o terror e a morte.

Nada ficava em pé à sua passagem. Convencidos da sua invencibilidade e ufanos da sua crueldade alimentavam-se da morte. Dizia então o chefe dos invasores, ter tal força de destruição que esta se estendia ao seu cavalo ao ponto de em chão por ele pisado jamais nascer sequer uma erva. 

O grito de alarme implantou-se e ficou de referência quase eterna, pois como bem sabemos invadir e destruir tem sido ao longo da História o supremo gozo da raça humana que teima em repetir os erros. Evolui em tudo menos na capacidade de ser um pouco melhor. Atingimos o estatuto de milhões de pequenos deuses, mas não nos aproximamos nem um pouco da perfeição. 

Nos territórios outrora invadidos pelos bárbaros, aquilo a que hoje podemos chamar a nossa Europa a identidade e as fronteiras foram-se forjando a ferro e a fogo com mil anos de guerras. No entanto, apesar delas, fomos capazes de erguer a mais justa civilização de sempre. Construímos saberes e riqueza, a ponto de nos termos como o farol do mundo e este seguia-nos. 

Mas demos cabo de tudo e mais uma vez não aprendemos. As memórias da última guerra repletas de situações e de ações próprias de demónios desenterrados bem cá do fundo de cada um de nós, ainda estão bem presentes, mas não impedem que se esteja a recriar o contexto que destapou o alçapão onde se acoita o pior do bicho homem.    

Para milhões de pessoas o quotidiano virou tormenta vivida ou temida, num terreno propício ao germinar dos medos que sempre cerceiam a racionalidade e exterminam a generosidade. Foram surgindo então aprendizes de Átila que se encarregam de soprar o morrão que logo vira labareda soprada pelos ventos nascidos dos ódios reacendidos. 

Os bárbaros estão a invadir-nos de novo, mas nós não os vemos. Não vêm montados em alazões poderosos e nem sequer trazem espadas, não incendeiam, mas destroem.

 Conquistam quase sem se moverem. Basta-lhes por os seus soldados a mexer em teclas camuflados de respeitáveis senhores, mas escondidos que nem ratos que se alimentam e dão como alimento a imundice mental.   

Este mundo que nos coube em sorte, continua bonito, mas está outra vez muito mal frequentado. Criou uma flor que se chama democracia e que reluz na liberdade, mas ela está a ser fortemente atacada pelos diabos à solta. O cavalo do Átila sob a forma de sofistica tecnologia, está a pisá-la. 

Os bárbaros já chegaram. Nós que ouvimos, lemos e vemos, não podemos permitir que o chão seja esterilizado. Devemos isso aos nossos pais e aos nossos filhos.  

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