O estranho caso da cagadela da gaivota

Por: Ribeiro Aires

O dia estava primaveril. Lisboa  respirava um ar fresco. A cidade retomava parte da vida perdida durante a pandemia que, teimosamente, se alapava a dezenas de lisboetas imprudentes e desprezadores das regras elementares de saúde.

Medina   convidara um seu amigo de infância  para  o almoço, sábado, véspera de Santo António, sem marchas e com restrições apertadas nos bairros, onde a sardinha, mesmo assim, havia de deixar  o seu aroma volátil pairar  no ar. Foi à Madragoa, à Tasquinha da Gina que o recebeu com todas as mesuras digna de um presidente de Câmara.

Estava ele a comer uma sopa de espargos, preferida ao caldo verde, para aconchegar o estómago, antes de saborear  as sardinhas,  quando lhe caiu uma cagadela de gaivota bem no meio do prato.

– Porra! – vociferou. – Olha-me esta merda, Serafim.  Chama-me a Gina.

A Gina era uma mocetona, perto dos seus  quarenta anos,  sempre muito girigota.

– Que foi, senhor presidente?

– Leve daqui esta sopa.

– Não gosta?  Trago-lhe outra.

– Olhe para ela.

– Que tem?

– Merda.

– Não me diga. Rais partam as gaivotas.  Sabe o que é?…

–  Sei. Falta de todo.

– Pois é. O toldo. Os toldos, na verdade, são uma segurança. Às  vezes, descuramos. Percebe. Acontece a todos, não é senhor presidente?  Contamos com uma protecção… Mas com este céu azul de Lisboa, tão lindo, nem eu nem a Bira, a minha empregada nova, nos lembrámos que as gaivotas… Pois as gaivotas têm esta liberdade, quando voam também… é isso… não têm respeito e vai daí…, posso dizer, senhor presidente? Não digo, é feio e á mesa, então…   –  Os dois comensais ficaram de olhos pregados nos olhos e no discurso ladino  de Gina. – É lamentável o que aconteceu. Prometo que não volta a acontecer. As minhas desculpas.  O seu almoço vai ficar por conta da casa. Não se preocupe.

– Não quero sopa, nenhuma. Vá buscar as sardinhas. Despache-se, que eu não posso ficar aqui o resto da tarde – pediu Medina.

– Ok, ok. Não se exaspere mais do que já anda. Ó senhor presidente, só aqui baixinho, que ninguém nos ouve, e sem ofensa: a gaivota não seria russa?  – e sarcoteou-se dali, sem olhar para trás, perante um Medina, sem saber bem o que dizer e o que fazer.

– Olha o raio da rapariga! Esperta!

– Vingança de activista russo? – riu Serafim, após ouvir o atrevimento de Gina. – Tens de dar volta a isto.  Como é que uma manifestação de janeiro saiu só agora do frigorífico?

– Moedas…

– Uma moeda  a pedir a tua cabeça, qual Salomé. Tens  de estar preparado para muito mais. As ondas vão ser maiores. Já te viste num cartaz do PSD: “Medina o homem sem cabeça em Lisboa”?

–  Mas não têm sorte. A minha cabeça tem muita coisa  dentro. E boa. Te juro. E no bolso tenho moedas para o troco, no tempo certo. Que me aguardem.  Então as sardinhas? – perguntou, acenando à Gina que assomou à porta.

– Aqui estão, fresquinhas – apressou-se ela.

– Bem fresca me saíste tu – comentou Medina, para lembrar a conversa anterior. – Gina pisgou-se  dali o mais rápido que pôde.

– Mas, Fernando, naqueles teus serviços há gente que pensa? Se pensa não reflecte. Pensar e reflectir não sem bem a mesma coisa. Reflectir é  muito mais que ter  uma ideia. Todo o enunciado tem de assentar em porquês e conexões. Em política, como em tudo na vida, é preciso prever o que vem depois de acto. Não se diz que toda a acção tem uma consequência. Pode não ser imediata… E, depois, deviam ter conhecimento da História e,em especial, do histórico de certos políticos… O caso é sensível.

– Mas tu pensas que a embaixada e o Kremlin não têm toda a informação de qualquer activista no mundo. A espionagem não acabou com a guerra fria.

– Eu sei. Mas o princípio…

– Não se vai repetir.

Gina reapareceu.

– Que tal as sardinhas?  Escolhi as melhores. Pode voltar, amnhã.

– Com toldos…

Um leve sorriso malandro enleou os três. Gina rematou:

– Com toldos, mas também com gaivotas… Só.

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