O que nos ensina a pandemia

Somos muito lestos a ver o argueiro nos olhos dos outros e a apontar o que de mal vemos neles. É muito fácil apontar aos outros o que, por vezes temos em nós e não vemos.

Esta pandemia veio pôr a nu muitos dos erros que temos cometido como sociedade e como indivíduos. Em todos os países e em todos os recantos do mundo, seja qual for a nossa função e o meio em que nos movimentamos. E somos muito exigentes a exigir que alguém faça, que outros mudem o mundo por nós. Esquecemos que todos somos responsáveis por nós e por cada um dos homens, pela natureza, pelo ambiente, no fundo, pela vida, pela criação de que todos usufruímos.

Claro que é difícil lutar contra as grandes estruturas, sejam elas políticas, sociais ou tecnológicas, montadas para explorar os mais fracos. Sentimo-nos impotentes para mudar o mundo, para combater os problemas e até para denunciarmos o que está mal e propormos a sua alteração. Mas pior é se nada fizermos. Se cada um de nós fizer alguma coisa, por mais pequena que seja, algo pode mudar nas nossas vidas e no mundo inteiro.

O Papa S. João Paulo II publicou uma Encíclica em 30 de Dezembro de 1987, intitulada “A Solicitude Social da Igreja”, na qual, sabiamente, faz o levantamento de praticamente todos os problemas que afligiam o mundo naquela época, há mais de trinta anos. Problemas como o subdesenvolvimento, com o alargamento do fosso entre o Norte e o Sul; a produção, acumulação e comércio de armas; a miséria e a fome; a questão da dívida dos países pobres; a guerra fria, entre os dois blocos; o imperialismo e o neocolonialismo; os refugiados; o problema demográfico; o consumismo; a limitação dos recursos naturais; a avidez do lucro e a sede de poder, que leva as ditas elites a tomar decisões, “inspiradas só pela economia e pela política”, que conduzem a “formas de idolatria”, do dinheiro, a ideologia, da classe e da tecnologia”. Isto leva o Papa a falar nas “Estruturas de Pecado”, que, podemos dizê-lo sem medo de errar, nos conduziram ao ponto em que nos encontramos hoje, passados quase quatro décadas sobre aquele documento, que merece ser de novo estudado, para não dizer a actualizado. E bem andaria o Papa Francisco, se viesse, no final da pandemia e analisado tudo o que se passou durante estes anos, dizer, por outras palavras e perante estas novas realidades, que é tempo de o mundo arrepiar caminho

Mas raparemos como o que vemos é o agravamento de muitas situações e um refinamento daquelas ditas “Estruturas de Pecado”. Como exemplos, temos, nomeadamente, a rivalidade e a ameaça de uma nova “guerra fria”, entre os USA e a China; a exploração das riquezas dos povos africanos; o avanço de regimes ditatórias ou aparentados; a censura e a perda de direitos como a liberdade de expressão, o aumento da pobreza e um novo colonialismo que a China está já a impor a alguns países. Com efeito, depois de lhes criar dependências insustentáveis, através de dívidas estratosféricas, por força da realização de obras faraónicas, quantas vezes desnecessárias.

Existem organizações, instituições e grupos que apenas são criados com o objectivo de espoliarem os pobres e os povos daquilo que lhes faz falta e a eles sobeja. São verdadeiras estruturas fundadas para, consciente ou inconscientemente, causar mal à humanidade.

A nível ambiental, embora a generalidade das pessoas comece a tomar mais consciência dos problemas, veja-se como a falta de respeito pela natureza provocou o aparecimento de um vírus que colocou o mundo em risco e está a provocar centenas de milhares de mortos em todos os países.

Esta encíclica merece ser relida e aplicada, por todos os homens de boa vontade, independentemente das suas opções religiosas ou políticas.

1 – OS MILHÕES DA UNIÃO EUROPEIA. Acho muito bem que a maior parte desses dinheiro seja aplicada na criação de riqueza e não para mais consumo, bem-estar e corrupção por parte dos grupos e entidades do costume. Vigilância máxima, precisa-se. E bem andam os do Norte, os “frugais”, em exigir que nos povos de Sul se mudem alguns comportamentos despesistas e supérfluos, que nada a trazem de útil às nossas sociedades. Tem-se gasto tanto dinheiro mal aplicado! Eles vêm cá e vêem. E não são parvos.

2 – As diferentes religiões deram um exemplo extraordinário de civismo e respeito pelas instituições políticas. Quem dera que essas instituições respeitassem mais as religiões e os seus crentes. Infelizmente, não é isso que observamos no dia a dia.

Na generalidade das igrejas as regras forma escrupulosamente cumpridas.

Partilhar:

Outros artigos:

Menu