Orçamento Canhoto

Por: Ribeiro Aires

Gino levantou-se cedo. Foi dar  a sua caminhada lá para os lados de Lordelo, a vila  a crescer nas barbas da cidade  capital de distrito. Tinha a cabeça cheia de questões. Além da covid, veio-lhe à mente o orçamento. Imaginou-o na  Feira do Levante. Viu barracas. Poucas. As da direita estavam vazias. Melhor, apenas cheias de vento. Tal significava que dali podia também vir tempestade, depois da Depressão Bárbara que nos bate à porta.

A questão que preocupava Gino era saber se um orçamento podia ser definido como de direita ou como de esquerda. Um esquerdino era um canhoto. Os brasileiros, lembrava-se de quando era adolescente, já lá iam mais de 50 anos, no relato futebolístico  usavam muito  “ lá vai ele pela canhota”,  gosto expressivo que, por cá,  fez caminho durante alguns anos. Ser canhoto não é, hoje,  uma «anormalidade», mas, sendo pouco diferente, noutros tempos, era  uma característica física olhada de esguelha. Durante milhares de anos,  o canhoto carregava algo de tenebroso, algo de diabólico.  É à direita de Deus Pai que se sentam (sentarão) os justos.  Tudo o que gira, como os ponteiros dos relógios, gira para a direita. Gino não se esquecia de que sempre ouvira dizer “ o que a mão direita faça, a esquerda não saiba”. A direita dá… já a esquerda… Os anciãos é que o diziam.  

Quando os pais se apercebiam de que um filho era canhoto, tentavam alterar esta “naturalidade”  forçando a que exercitasse  mais a mão direita, muitas vezes, com métodos pouco ortodoxos, pois escrever com a mão errada era  sinal de insubordinação grave e  até prova de dificuldade de aprendizagem. Tal obrigação, era uma violência sem resultados práticos. Se a educação pode alterar comportamentos, já neste caso nada podia fazer. Não se conseguia contrariar a natureza.  Neste caso “quem nasceu torto nunca se endireitava”. Era como querer substituir os olhos azuis por uns verdes ou castanhos, pensava Gino. Abanou a cabeça e voltou ao pensamento inicial. Ou seja: o orçamento, tem-no dito o Primeiro-ministro, é de esquerda. Porém, Catarina Martins e Jerónimo duvidam. Nunca se satisfazem com chupetas. Quem diz estas, diz chupa-chupas, gelados,cristas de galo, covilhetes,  pitos de Santa Luzia, pastéis de Chaves, pasteis de Belém, posta maronesa, butelo de Bragança,  chanfana da Beira Alta. Se lhe põem na mesa coelho, querem a seguir pato, se lhe põem pato, querem cabrito ou leitão e, a seguir,  desejam javali inteiro, depois um boi e, se for possível, um elefante… Gino meneava a cabeça enquanto da estrada olhava para a feira do Levante. O orçamento estava em leilão e agitado. Eram poucos, mas mexiam-se bem. Era mesmo uma feira e ao mesmo tempo um jogo, discernia. Cada barraca tinha uma tarja com o respectivo símbolo partidário. Cada representante mostrava o seu produto. Gino não sabia se contrafeito, se de origem, nem se o compraram na mesma fábrica e qual fábrica: emprego, investimento público, IVA, IRS, apoios sociais, incentivos ao turismo, à habitação, à cultura, salários, taxas ao grande capital, aos grandes produtores, etc. Cada um ia gritando: a mim, a mim que  dou mais. 

Era mesmo um jogo à esquerda. A direita mansa retirara-se deste combate, aguardando momento certo para atacar com firmeza e segurança.

Gino precisava de um café. Foi até à gasolineira. Não lhe saía da cabeça a pergunta inicial: mas um orçamento é de direita, é de esquerda ou se devia ser do país, sem esquerda e sem direita: os desempregados, os médicos, os enfermeiros, os professores, os artistas, os camponeses, os comerciantes, os industriais, os motoristas, os empregados de qualquer área, os serviços domésticos, O IVA, o IRS, etc.etc., são canhotos ou destros? Gino regressou ao seu ponto de observação. Os partidos de esquerda, mais o PAN,  andavam a jogar à corda. De um lado o PS, do outro os restantes. Puxa de um lado, puxa do outro, para ver quem cedia em cada esticão. Interessante foi vê-los depois sentado  numa mesa pé de galo, a jogar ao “rapa- tira-deixa”. Gino não conseguia àquela distância perceber quem rapava ou tirava mais, quem deixava tudo na mesma ou quem não punha nada. Não sabia se havia sorrir se gritar ao ver esta brincadeira. Imaginava-os a todos  com chapéu adornado  com promessas em fitinhas arco-íris que serviam em todas as cabeças.

Gino acordou daquele transe. Passou os dedos pelo cabelo e de repente lembrou-se que as suas «repas» estavam um pouco compridas. Pensou e decidiu: “já que estou na terra dos barbeiros, vou compor  o pelo, já que não vejo quem me componha o meu orçamento já um tanto careca.”

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