Os amigos

Nestes dias de isolamento pensa-se nos amigos e recordam-se momentos. Com os amigos, fazemos as loucuras que não fazemos em família, que marcam a nossa vida e sentimos-lhes a ausência. Fernando Pessoa escreveu “Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem todos os meus amigos!”. É um pouco assim.

Passa um registo na memória como se fosse um álbum de fotografias. Nos esquecimentos, recorre-se às pastas de fotos digitais. Olhamos com mais pormenor… olhamos aquela que foi tirada em Paris, a outra de um jantar numa tasca qualquer, a do piquenique na montanha, mais esta tirada na praia rebolando na areia, a da noite dançante e a outra em contra-picadinho no interior de um museu. Olhamos as que retratam o dia-a-dia, do trabalho e fora dele.

Que será feito do Manel? A Rita estará em casa? O Fernando, já há muito que não sei nada dele… Vou ligar-lhes. Ficamos felizes se atendem, conversamos pelo telemóvel, parece que nos vimos no dia anterior, porque a amizade está sempre em dia. Agora não podemos combinar um jantar ou uma saída. Ficará para brevemente, para os dias que virão, prometemos e prometemos ter cuidado, prometemos que ficaremos em casa até tudo isto passar. Ficamos preocupados se não atendem e não querendo pensar o pior, pensamos e voltamos a ligar mais tarde.

Os amigos aguentam-nos nos momentos difíceis e riem connosco quando tudo corre bem. Com eles, fazemos coisas impensáveis, parece que a amizade desperta a criança que há em nós e vive encerrada no interior de nós. Somos genuínos nas fraquezas e nas euforias. Os amigos são o porto seguro das nossas inseguranças e medos. Viajar com amigos, enriquece a nossa experiência, o destino, o percurso e o regresso, anima as cores das fotografias e tornam-se inesquecíveis, porque estamos sempre abertos ao imprevisto e juntos somos mais fortes e divertidos. Rimos das qualidades e dos defeitos de cada uma. Os mais introvertidos e pessimistas aprendem a fazer humor com as suas tragédias para rapidamente abandonarem o muro do fatalismo. Não pensem que na verdadeira amizade vale tudo. Não. Entre amigos há uma ética rigorosa e implacável – a confiança, a lealdade e o respeito. Quem ultrapassa faz um caminho sem regresso.

Tenho amigos de grupo e tenho amigos solitários. Cada um é especial à sua maneira. Não costumo misturá-los, acho que não seria bom. As minhas afinidades e empatias são únicas com cada um e todos são diferentes. Falo de arte com uns, de futebol com outros (confesso, oiço mais do que falo), ou seja, a conversa equilibra-se entre o erudito e o popular de muitos matizes, mas o que gosto mesmo é de uma conversa vadia, que corre lenta sem rumo certo, bordada a sorrisos pendurados no rosto, pontuadas com grandes gargalhadas, que formulam sonhos, recordações, muita imaginação e sem hora de partir. Entre amigos as fragilidades dissolvem-se na empatia que nos une, que nos fazem falar com frequência só com o olhar. Por vezes as palavras não são necessárias, a doçura ou a dureza de um olhar, expressam tudo.

Os amigos constroem connosco novas realidades e novas abordagens a estas, que nos preenchem e nos tornam mais resilientes. Por vezes dá para associar a amizade à música, às cidades, aos livros, às paisagens, aos aromas e aos pensamentos. Há sonhos e aprendizagens comuns.

Tenho amigos para todos os gostos, uns são doces e outros insuportáveis para a maioria dos mortais. Cada um cruzou-se comigo em circunstâncias próprias e por isso são todos diferentes e genuinamente meus. Uns são. Outros estão. Ainda tenho os que infelizmente, já não estão. Uns estão longe, outros perto. Agora estão todos fisicamente distantes, mas todos fazem parte de mim, dando as mãos com esperança.

Convosco, sou eu.

Por: Anabela Quelhas

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