Os anos em cada tempo

Por: Manuel Igreja

Este nosso tempo parece-nos estranho. Além disso, inquieta-nos. O ano novo está a iniciar-se, coisa que se repete desde há dois mil e vinte e duas vezes na nossa era, e esperámos. Desejamos que tudo seja pelo melhor possível como sempre sucede no virar da folha do calendário.

Desta vez tememos. Aliás, tememos sempre. Depois, cada qual segue o seu percurso nunca igual, mas que passa pelas mesmas veredas condicionadas e condicionantes das circunstâncias individuais e coletivas. No fundo, conforme se é e mediante o local onde se habita, assim a vida decorre até ao ponto em que se morre.

Neste início de ano, olhámos em redor e escurece-nos o brilho nos olhos, enquanto sentimos um aperto no peito. Sentimo-nos rodeados e sitiados por uma pandemia global que tendemos a ter como sem igual. Efetivamente, não é única. Antes pelo contrário, é só mais uma.

Outras houve em outras épocas bem piores. Não em si mesmas, mas porque encontraram os seres humanos absolutamente frágeis perante os seus efeitos por falta de grande conhecimento das pequenas particularidades de cada grande ataque sanitário. Cada surto, era um combate desigual com uma das partes desarmada.

Mas agora, a nossa condição de quase pequenos deuses, permitiu-nos muito mais rapidamente que antes alcançar armas de combate que se foram aperfeiçoando a cada dia. Não desistindo, acreditando, unindo esforços e focando objetivamente um desejo, conseguimos que a peleja mesmo que dinâmica se tenha tornado quase a par. Por isso venceremos.

O ano começa com muitos ajustes. Mesmo impercetíveis, as estruturas rangeram e modificaram-se. Estruturalmente pode pouca coisa ficar como era  por causa dos efeitos. Uns foram mais imediatos, outros estão a decorrer e outros mais tarde ocorrerão e se sentirão. Irá ser o que Deus e os homens quiserem.   

Nisto tudo, o que sabemos é que o mundo levou um abanão. Durante meses esteve quase parado ou a andar devagarinho. Depois arrancou, mas verificou que faltavam coisas e loisas. Não se produziu, logo quando se precisou não houve matérias primas transformadas, nem peças produzidas. As que havia e as que se fez passar a haver, esbarraram na confusão sentida na distribuição global sem hora certa de chegada ao destino.

Na casa das máquinas deste nosso pequeno mundo que não passa de uma enorme embarcação frequentemente sem tino no porto de alcance, vai um desconchavo de todo o tamanho. Os parafusos estão mal apertados, alguns soltos, as correias de transmissão rangem, os rolamentos estão esfarelados e as velas quase desprendidas esvoaçam.      

Mas chegaremos onde queremos. Outros antes de nós também chegaram, pois, a vida é um ciclo de adaptação e de sobrevivência. Os outros anos já passaram. Este irá passar e outro virá. Viver, bem vistas as coisas, é isso mesmo. Estar, ter estado, e ir. Ser.        

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