Os autênticos e os verdadeiros autênticos

Por: João Madureira

Andava tudo naquele engano de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito quando…

Quando a “Ordem dos Pequenos Artífices da Nova Arcádia” atravessou uma crise muito grave. 

Tudo começou quando alguns liliputianos, líderes de diferentes células da confraria em França, Itália, Estados Unidos, Espanha e Portugal exigiram ser tomados em conta para ascenderem à posição de Artífice Superior. Na sua douta opinião, era injusto que se fossem procurar desconhecidos para ocuparem cargos, quando na Ordem havia gente com mérito para os desempenhar. Exigiam ainda que a organização fosse depurada de anões e apenas acolhesse no seu seio liliputianos “puros”, pois incomodava-os serem dirigidos por pessoas com o corpo disforme e rechonchudo e ainda terem de as tratar como iguais nas organizações de base. 

Os revoltosos insistiram na negociação, mas apenas com as estruturas dirigentes. O “Livro das Revelações” dizia que era o Demiurgo aquele que determinava quem ocupava as vagas na direção da Ordem. E que o mesmo acontecia quando terminava o mandato de um Mestre Maior: era Ele quem escolhia, entre os quatro Artífices, o seu sucessor. 

Aqui chegados, foi o Príncipe Colibri quem interrompeu a reunião para acabar com a desfaçatez. Afinal, o Demiurgo não passava de uma invenção, um pretexto que “os de cima” empregavam para partilhar o poder. 

Os cabecilhas insubordinados decidiram então abandonar a Ordem. Eles, e os pupilos que os seguiram, criaram uma organização apenas para liliputianos. Fizeram uma eleição para escolher o Mestre Maior. Foi o Príncipe Colibri quem a ganhou. Mas, por razões inerentes a estes processos, não tardaram as lutas intestinais.

Vários integrantes da nova seita resolveram criar uma outra confraria a que chamaram “Os Verdadeiros Autênticos Pequenos”, grupo que passou a ser dirigido por um escocês chamado Coronel Moscardo, que trabalhava em circos de má morte. 

A organização mãe daquela gente pequena tinha como dirigente Dragulescu, mas a sua condição de anão tornava-o numa persona non grata quer para “Os Autênticos Pequenos”, quer para “Os Verdadeiros Autênticos Pequenos”.

A verdade é que a Ordem deixou de ser a organização monolítica e influente do passado. A cisão provocou-lhe danos irreparáveis. 

E as coisas ainda pioraram quando alguém descobriu o local onde escondiam a fórmula para localizar os futuros Artífices Superiores. Embora não tivessem provas, os Artífices estavam quase certos de que “Os Autênticos Pequenos” ou “Os Verdadeiros Autênticos Pequenos” eram os culpados por vários atos de vandalismo.

Todos desconfiaram que foram os dissidentes que mataram de forma atroz algumas pessoas que os andavam a investigar.  

Custou a Chiquita pensar que, afinal, a paixão do seu amado Pompeu fosse fingida. Mas guardou a desilusão para si. Perguntou àquela gente da “Ordem dos Pequenos Artífices da Nova Arcádia” o que pretendiam da sua pessoa. Pois se lhe queriam oferecer um lugar na direção, lamentava muito ter de os dececionar. 

Dragulescu disse-lhe que ela não tinha compreendido bem como eram as coisas. Pois nenhum deles tinha escolhido entrar para a Ordem. Foram escolhidos por ela. 

A seita não convida as pessoas. Designa-as, pura e simplesmente. 

Alguém a esclareceu de que mesmo que ela resistisse a ir às reuniões, a sua projeção astral iria, quando fosse convocada. Às assembleias da Ordem não assistiam os corpos físicos dos seus membros, mas os seus duplicados astrais. Esse era um dom partilhado pelos escolhidos pelo Demiurgo. Os que traziam ao peito as bolinhas de oiro podiam desdobrar-se e estar em dois locais ao mesmo tempo. A vontade do corpo astral era independente da do físico. 

Depois desta explicação, deram a Chiquita as boas-vindas oficiais ao cargo de Artífice Superior que ficara vago por morte de um anão de Alexandria. 

Como não puderam fazer nessa noite a cerimónia de iniciação, adiaram essa formalidade para mais tarde. Cada corpo astral voltou a reunir-se com o seu corpo físico. 

A última a deixar Lisboa foi Chiquita. Mas antes de o fazer, pegou no único pastel de bacalhau que restava no prato para o ir comendo durante a viagem. 

No dia seguinte, quando acordou no seu hotel de Manhattan, pensou que tudo não passava de um sonho. Ou de um pesadelo. Mas teve de mudar de ideias quando a sua criada Rústica, ao ajudá-la a vestir-se, se começou a queixar, surpreendida, com o cheiro intenso a bacalhau que exalava. 

Nas semanas seguintes, o seu duplo astral aprendeu muitos dos segredos da confraria. Ensinaram-na a usar a sua insígnia de ouro para enviar mensagens e outras coisas e também a dizer algumas frases simples na língua secreta dos anões. 

PS – Texto baseado em excertos da obra “Chiquita”, de Antonio Orlando Rodriguez. Edições QuidNovi.

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