Os flagelados do vento leste

“Dias irae, dias illa solvet saeculum in favilla, reste David cum Sibylla (Dia da Ira, nesse dia /Serão os séculos feitos em cinzas/como disseram David e Sibyla”. Os dias são de ira, mas contra um vírus que nos remete para um tempo  sombrio, em que a moléstia tinha milhares de pés, galgando, hoje, pelas ruas com a ameaça de reduzir a cinzas o nosso optimismo civilizacional. Confinados em casa, escondidos uns dos outros, falamos uns com os outros, procurando fintar o intruso.  O tempo é de dúvidas e de combate, de ideias tortas e outras direitas. Procuram-se caminhos para o futuro.

JP e PJ andam baralhados das ideias. Pensam, pensam, analisam, procuram respostas.

– Olá, JP.

– Viva, PJ.  Vai um cafezinho?

– Então não vai?

Ligados por Skype, cada um foi fazer o seu café. Regressaram e frente a frente tomaram o seu café.

– Então, que me dizes? Este  coronavírus saiu-nos cá um traste!

– Nunca imaginámos – disse JP.

– Mas imaginaram os chineses. Ando cá a magicar que  o fabricaram em laboratório. Só pode.

– Lá tornas tu com essa aversão aos chineses. Já pareces o Badaró: “Mim não sêle chinês, mim sêle japonês”. – Contestou JP. PJ riu-se com a lembrança do amigo.

– Então, diz-me: com tanto saber, com tanta ciência acumulada, como se percebe que ninguém saiba como lhe cortar a coroa e furar-lhe o bucho? Conhecendo-se a estirpe, alguém o aperfeiçoou, lhe deu capacidade reprodutiva, inteligência especial, como diz a Directora Geral da Saúde, ainda que não perceba que um ácido ribonucleio e proteína seja inteligente. Não me convencem que o morcego foi comido pelo pangolim que foi comido pelo chinês.

– Não percebes, ou não queres perceber? Devias saber que só a varíola foi doença  exclusivamente humana. Os vírus são transmitidos pelos animais. Não queres que te faça a lista, ou queres? – Controverteu JP.

– Aqui, houve tramoia. Ninguém me tira isto da cabeça.

– E a China inventou o vírus para matar a sua gente? Estás pírulas.

– Mas tu julgas que ao poder chinês lhes faz falta cem mil ou duzentos mil habitantes? Quem tem quase um  de bilião e meio…

– E este sentido humanitário que tem demonstrado? – perguntou JP.

– Deixa-me rir. Sentido humanitário! Negócio! Negócio, meu amigo, PJ. Vê como eles se prepararam para a crise? Como é que num ai têm tanto material para enviar para todo o mundo? Os gajos estavam a viver uma crise económica grave e agora é só facturar, facturar…

– Com muitas ofertas, muitas ofertas…

– Isso é uma estratégia. Xi Jinping não é burro. Quer transformar-se no primeiro país económico do mundo. Tudo não passa de uma sedução.Todo o mundo olha para a China. Todo o mundo lhe vai ficar agradecido, sem capacidade para, depois disto, a hostilizar. Está a meter num bolso o parvo do  Trump, que lhe encomenda material, porque o não tem.

– Lá vens tu com a teoria da conspiração.

– É a vingança do chinês. Lembraste da guerra de Trump ao Huawei. Pois aí tens. É a vingança do chinês. Tu não ouves a rir? Eu oiço.

-. A patetice pode ser uma doença viral.  E, tu estás a ser pateta. Estou a ver-te na equipa do André Ventura.

– Não me fales desse gajo.

– Mas tu estás a lançar um anátema  sobre os chineses e isso é perigoso.

– Não. Não. Os chineses são vítimas do seu próprio poder. Os que cá estão, por exemplo, fazem a sua vida. Simplesmente emigraram. Muitos serão de Macau. São como cidadãos portugueses. Calma, aí. Nada de confusão. Aqui vivem em democracia. 

– É que o teu discurso é um tanto populista. Fiz-me entender?

–  Qual populista! – protestou PJ. – Deixa-me dizer-te só uma última coisa. O poder só olha para si, para o seu retrato. A máquina do Xi tem de funcionar e os que fazem parte dela só olham para os seus superiores e não veem o que se passa com as pessoas comuns. E não quero ir a profundeza da questão.

– Nesta parte concordo contigo.

– Óptimo. Assim o café ficou mais saboroso, ainda que no fim. Termino este nosso briefing  com o seguinte:  seja lá o que tenha acontecido, sinto-me um dos  flagelados do vento leste.

– Boa saúde, amigo.

Por: Joaquim Ribeiro Aires

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