Os ingleses: piu, piu que os pariu!

Por: J. Ribeiro Aires

A nossa mui querida Inglaterra está a trair-nos mais uma vez. Varreu-nos das listas  do corredor turístico benquisto. Qualquer cidadão inglês que ouse passar férias em Portugal, ao regressar à sua pátria, tem de, obrigatoriamente, fazer, uma  quarentena de 14 dias. “Ora toma, que já almoçaste” como diz o povo, em quejandas ocasiões.

O ministro português dos estrangeiros falou grosso, mas a voz de qualquer português, por mais alto  ou  espadaúdo   que seja, chega  sempre fininha  a Londres, afundando-se  nas águas frias  do Tamisa.  O poder inglês tem  pele de elefante, nem as garras de leão lhe penetra. Ora, nós nem leões somos.  Temos sido sempre uns bichos amestrados perante sua alteza real. Sorrimos, bajulamos, mas Londres, se lhe der jeito,  dá-nos um coice, deixa-nos a fazer «caim-caim»  e segue adiante. 

A História regista uma nunca desfeita secular aliança Portugal-Inglaterra (Tratado Anglo-Português, 1373, a que seguiu em 12 de maio de 1386, o Tratado de Windsor)  que serviu ora a um ora a outro.  Antes destes dois tratados, em 10 de Julho de 1372, D. Fernando e João de Gant (filho de Eduardo III), assinaram um acordo  de apoio mútuo na sucessão ao trono de Castela, que ambos pretendiam. Tontos.  Henrique de Trastâmara    fora, porém, mais forte  e assumiu o trono (era filho natural de Afonso XI de Castela e Leonor de Gusmão;  assassino do irmão Pedro I; sucedeu-lhe João I que  casou com D. Beatriz de Portugal e foi derrotado em Aljubarrota). 

João de Gante deu, entretanto, a mão de sua filha, Filipa de Lencastre, ao Mestre de Avis, D. João I, selando a aliança  política. E este casamento foi, talvez, o melhor que aconteceu a Portugal, no final da Idade Média. Foi quando começou o futuro de Portugal. Falamos do apoio na luta contra Castela, importante em Aljubarrota, e da Ínclita Geração dos Descobrimentos. Depois, arruinaram-nos com o Tratado de Methuen (1702), e em 1810, com tratados comerciais  que beneficiaram no Brasil, retirando  a Portugal lucros avultados. Roubaram-nos e ocuparam-nos, após a saída dos franceses, em 1811. Nos finais do século XIX e  antes da Grande Guerra quiseram dividir as nossas  colónias com a Alemanha.  Razão tinha Guerra Junqueiro chamar-lhe “Ó cínica Inglaterra, ó bêbada impudente», e  o vila-realense Manuel Duarte de Almeida (1844-1914), em Vae Victoribus.

O teu riso de hiena, o teu sarcasmo gélido,

A hipocrisia untuosa e pautada e correcta,

Que faz de ti, viscoso e repulsivo anélido!

Um ventrudo Falstaff em hábitos de asceta;

– Enchessem-lhes as bentas de presunto e o bucho  de vinho do Porto… – desabafava o meu amigo Cabé.  

-Só tu para me fazeres rir. Presunto, bacalhau com todos, à Lagareiro, seja lá como for,  não é coisa importante e sempre foram donos do vinho do Porto. Para se emborracharem, basta. – respondi-lhe.

– Precisam de sol. Por lá é muita bruma, as de Avalon, dizem, que eu nunca fui a «terras de sua majestade» e ignoram-nos, como se em Espanha, na Itália ou na Grécia os vírus fossem comestíveis, com «corn flakes» ou «corned-beef» ao almoço.  O Brexit diz tudo destes novos dirigentes. O que me tem danado, ao longo dos meus anos é a nossa  sempiterna subserviência… E não digo mais, meu amigo. Se o dissesse era uma brejeirice. E não vale a pena.

– Sabes, como dizem os espanhóis? “Vale, vale”.  O meu avô António, que eu não conheci porque  apanhou o comboio da eternidade quando lhe passou à pota em 1944, sobre este assunto era bem capaz de dizer uma coisa tão simples como esta: “ Os ingleses? Piu, piu que os pariu.”

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