Otílio de Figueiredo: Em jeito de homenagem no dia do seu aniversário

Por: Anabela Quelhas

            “Vais a Trás-os–Montes e queres entrar pela porta principal para melhor conheceres esse santuário do xisto e do granito onde o homem comum sofre desde tempos imemoriais os horrores de todas as injustiças? O caminho nem sempre será fácil, mas se é do teu agrado, sobe às cristas mais altas do Marão, ou guinda-te de quebrada em quebrada pelo Corgo acima.

            Porém, um aviso te quero fazer: antes de iniciares tal jornada, não te assustes com o que vires.

            Esses penhascos bravios que por aí andam a esmo como almas penadas e parecem guerreiros sanhudos a sondar os vales distantes de Além-Tâmega e Além-Doiro, ou as arraianas terras de Espanha, hoje não fazem mal a ninguém.

            Teriam sido outrora sentinelas vigilantes, sempre de atalaia e prontas a dar o sinal de alerta, não o duvido.

            E tão bons serviços prestaram que te digo em boa verdade: ai de quem se atrevesse a vir por mal, fosse de César ou de Alarico, de Mafoma, de Castela ou de Napoleão, porque eles aí estavam, dispostos a barrar-lhes o caminho, e só entravam (se logravam entrar) depois de correr muito sangue. (…)

            (…) E se te diminuir a coragem pelo aspecto medonho, inquietante de umas aldeias de humildes casebres escuros, de tocas primitivas, cobertas de colmo, muito juntas (como se tiritassem de frio), a aconchegarem-se e a sumirem-se nas vertentes das colinas por entre a folhagem de robustos castanheiros, de espessas carvalheiras e do verde escuro dos pinhais, ou então a espreitarem perfiladas, além, nos socalcos dos vinhedos, onde cansadas, se retemperam ao sol da sua eterna fadiga: podes sem receio palmilhar, de dia ou de noite e circular despreocupado pelos caminhos e carreiros sem levares contigo o pesadelo duma arma, e dependurada ao peito uma cruz ou uma figa de azeviche, reforçada com signo-saimão. (…)

            (…) E mesmo se o vento for rijo e forte (…)

            (…) Ou então, se de madrugada ouvires a cotovia a cantar (…)

            (…) E avisado deste jeito, continua com calma e sem medo na procura do martirizado mas maravilhoso solo transmontano, onde os humanos teimam em procriar e trabalhar sem conta nem medida. (…)”  

            Vale a pena ler o Roteiro Sentimental da minha terra – Vila Real e o seu Termo— de Otílio Figueiredo que tão bem escreve na sua faceta realista, o território transmontano. 

            Em jeito de homenagem no dia do seu aniversário, 19/08/2020. 

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