Paranoia a preto e branco

Por: Ribeiro Aires

Nós sabemos que o mundo pula e avança e que nada é como dantes era. Uns dirão “ainda bem”; outros ficam-se embrulhados na saudade do que viveram, dos idílios de outrora. Hoje, tudo acontece demasiado depressa. Nem tempo parece haver para saborear os presentes que a vida, eventualmente, nos dá. Os mais velhos dizem que, com tanta mudança, o mundo anda de pernas para o ar, a mostrar as solas dos sapatos. Mas a mudança é global. Nada se pode fazer. É como um rio caudaloso. Irrompe e rasga o seu caminho, alheio a mãos na cabeça ou gritos de desespero. Assim sendo, por mais que discordemos das mudanças, só temos uma saída: apanhar o comboio sem sequer termos o direito de escolher a carruagem.

Vamos ao caso que hoje trago  como tema,  e que me arrancou mais uns frágeis cabelos brancos. Na tomada de posse de Joe Biden, dia 20 de Janeiro, términus do ano 1 da pandemia –  já houve a era de César, depois a de Cristo e agora será a da «pandemia» –  Amanda Gorman, de 22 anos, poetisa negra – recitou um poema – The Hill we Climb –  que encantou não só os presentes como o auditório internet. Logo editoras europeias quiseram traduzir os seus textos. A primeira proposta veio da Holanda, melhor dos Países Baixos, como se passou  designar-se o país, agora. A poetisa (eu prefiro usar este termo, à moda antiga) americana deu o seu aval à tradução por Marieke Lucas Rijneveld, de 29 anos. Mas, eis que o poder das redes sociais se impôs, tal foi o bater das panelas, à janela, na rua ou debaixo dos lençóis. Atiçadas, creio, pela activista Janice Deul, que põs o «preto no preto», vieram, não sei quantos milhares, defender que uma «branca»  não podia  traduzir  uma “negra”, isto quando o tema do poema é de conciliação. Este não é caso único. Em Portugal, a dobragem do filme de animação Soul, da Pixar, provocou também protestos porque a interpretação da personagem principal, negro, foi entregue a um branco, Jorge Mourato.

No primeiro caso protestava-se porque uma «branca» é incapaz de perceber uma alma «negra».

Talvez tenha sido por isso que a ex-duquesa Meghan  Markle, não conseguiu perceber as almas dos palácios reais da família Windsor, nem esta  o ser negro da artista de cinema. Sabemos o que significa, aqui, «alma». No segundo caso, já não era a alma, era a voz. Sabemos que a voz de um subsariano ou de um suburbano descriminado de um gueto americano pode ser diferente de um negro e de um branco da elite centro novaiorquina, mas não há no caso um exagero?

Em Fevereiro, a  Casa Fernando Pessoa, percebeu o toque (que rima com reboque) e publicou uma tradução do poema assinado por Raquel Lima, investigadora em Estudos Pós-Coloniais, geneticamente negra.

Agora, pergunto-me: devem dois indivíduos com cor de pele diferente casar-se, conviverem, se as suas «almas» não são capazes de se perceberem uma à outra? Só um negro é capaz de compreender um negro, mesmo que partilhem língua, usos e costumes, religião, profissão, etc.? Será que algum negro, seguindo este raciocínio, é capaz de perceber um branco? E quando falamos em descriminação e escravatura, elas têm uma só cor?  Se pensarmos assim a humanidade nem pula nem avança mesmo que o homem sonhe.

Quando se quer harmonizar a sociedade, lutar com o racismo, não serão estas atitudes «negras» elas próprias, a mostrar racismo que juram querer irradiar? Querem derrubar muros ou estão a levantá-los? 

Se formos por este caminho nem um «branco» pode traduzir outro «branco», se desfasado temporal e socialmente no tempo cronológico. Ou seja: como traduzir, hoje, Aristóteles, Platão, Virgílio, Cícero, S. Tomás de Aquino, Shakespeare, Cervantes, ou percebermos Vieira se é impossível  regressar ao passado, viver esse tempo e  apreender a alma de cada um?  Estão a querer meter-nos em guetos culturais?

Sabemos que os nórdicos pensam de modo diferente dos povos do sul, em certas situações, tal como os mexicanos dos canadianos, mas que diabo, o que a tradução de um texto tem a ver com a cor da pele, desde que o tradutor se contextualize com o autor e o conteúdo da obra? Não é isto antagonístico? O poema fala em “compor um país comprometido com todas as culturas, cores, feitios e condições humanas”. Amanda Gorman olhou para o futuro, para cima, mas parece haver quem não queira sair do passado e olhar para baixo.  

Face a esta paranoia a preto e branco prefiro a relação da abelha com a flor.

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