Pedro: o desejado

Por: Ribeiro Aires

1-A morte de D. Sebastião deixou-nos órfãos. Continuamos mergulhados em nevoeiro. Tivemos saudades de D. Manuel II. Ansiámos mais de uma década por ele. Contrariamente a D. Sebastião desistiu de nos aconchegar o futuro.  Já tínhamos Sidónio Pais. Mas alguém não quis e matou este no Rossio, para lembrar D. Carlos. Durante a República, passámos mal, ninguém se entendia, os políticos esmurravam-se, desafiavam-se para duelos e havia sempre um insurrecto que matava um primeiro ministro (António Granjo, 1921). Perdidos nos pós 28 de Maio, erguemos barricadas. Vivíamos revoltados quando havia uma Europa e uma América a viver a dolce vita a que chamaram os Loucos Anos. Foi então que em Coimbra encontrámos um homem ascético, nariz fino e sem sorriso no rosto. Arrastámo-lo para cadeira do poder que de tão roçada  e gasta o fez cair ao fim de 48 anos.  Chorámos a perda e pensámos: “E agora que vai ser de nós?”  Quem veio a seguir queria ser «pai», mas…, sim,… nem  como padrasto o quisemos. E um dia metemo-lo num avião e colocámo-lo no Brasil, onde gozou as delícias do samba. Depois dele  víamos os anos a andar uns atrás dos outros, vividos com o encanto da liberdade e de sermos europeus – como se nunca o tivéssemos sido. Vestimos uma camisa lavada, engomada, a jeito de triple-marfel, umas calças ou saia de fazenda, uma blusa de seda. Depois foi tempo da ganga coçada, esfarrapada. Vivíamos na corda-bamba: crise-esperança-crise-esperança do amanhã, sempre do amanhã. E num amanhã visitou-nos a bancarrota, depois do gastar à tripa-forra.  Com a corda ao pescoço, como um outro Egas Moniz e por outro desonroso motivo, entregámos a estranhos a nossa casa a uns senhores sombrios de óculos escudos, vindos da rejubilosa capital da Europa. Traziam na lapela o nome de “troika”. Recebeu-os o Pedro que foi obrigado a por trancas à porta. A casa estava vazia, com telhas partidas e com caibros carcomidos pelo caruncho. Na dispensa só umas côdeas de pão. Desde aquela hora, ralhávamos uns com os outros e, fazendo jus ao eterno provérbio, sem razão, para uns, com razão para outros.  Um dia, passados alguns sóis, num assalto ao poder, varremos com o Pedro.

2- Os seus, a família do Pedro, choram-no até hoje. Ouve-se muitas vezes: “Volta, Pedro; volta Pedro”. Na verdade ele anda por aí, mais agora, a dar outros passos. Ninguém sabe o que ele anda a fazer. Pensa-se que andará a ver quem é que funga, quem tem ramela  nos olhos, quem tem resfriado, entre os seus. Não sei se traz com ele ben-u-ron, aspirina, brufen ou canábis medicinal. Sabemos é que saudades dele não faltam. Pedro é o outra vez «desejado».  Pedro anda mesmo por aí, cabelo rapado, sem que seja um skinhead, pois os seus passos são por ideais mais nobres. Não é pavão, porque não é feitio dele. Há quem o queira levar em ombros, mas ele  prefere andar pelo chão.  As aventuras não serão para ele. Timoneiro, que já foi, não desejará embarcar em navio com casco remendado, que  não ultrapasse as ondas temerosas, nem parece querer ter uma marinhagem rebelde ou  incapaz de saber subir as velas do mastro principal.

Os passos de Pedro vão merecendo aplauso entre os seus devotos. É aplaudido pelo simples facto de aparecer. A sua aura espalha energia a quem dele se aproxima. Todos lhe querem tocar, como fossem leprosos à espera de cura. Tantos olham para Pedro, porque se sentem órfãos, orando pelo seu retorno, temendo que um rio de desalento os afogue.

É claro que Pedro dá passos, porque está vivo. Mas ninguém sabe porque águas ele caminha, que evangelho está a escrever e q que pue coelho um dia tirará da cartola.

Mas que dizer da República que aspira por D. Manuel II?  Como perceber uma democracia que tem como oriente Salazar? Como compreender  uma democracia que não se entende a si própria e não sabem que bilhete de identidade é o seu? Que raio de país é este que em vez de ter olhos no futuro só se vê reflectido no passado? Quem somos e o que queremos nós? Ai este sentir sempre a saudade!

Eu amo tudo o que foi

Tudo o que já não é

A dor que já não me dói

A antiga e errónea fé

O ontem que a dor deixou

O que deixou alegria

Só porque foi e voou

E hoje é já outro dia.

(Fernando Pessoa)

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