Periscópio | A moda das calças rotas

Opinião

1 – As calças rotas. Houve um tempo, há muitos anos atrás, que, em Portugal, andar de calças remendadas era sinal de pobreza extrema, de miséria e tudo o que se possa imaginar associado a esta palavra. Fome, falta de dinheiro, falta de recursos para as necessidades mais básicas, ausência de cuidados de saúde, carências de habitação condigna, problemas de toda a ordem. E não era raro encontrarem-se pessoas de calças remendadas e mesmo rotas. E quantas vezes os remendos não eram do mesmo pano, ressaltando e evidenciando ainda mais esse sinal de pobreza. Era o tempo em que as pessoas das aldeias, vinham descalças até à entrada das cidades e só calçavam os tamancos ou as botas com piso de pneu que traziam pendurados no ombro, porque a polícia tinha ordem para multar quem andasse descalço nas cidades.

Nesse tempo, romper umas calças nas nossas brincadeiras de garotos dava direito de certeza a uns bons tabefes ou pontapés no rabo.

Não resisto a contar as peripécias dos garotos de há setenta e oitenta ou noventa anos atrás, que, na minha terra, ao final do dia, quando o sol descia no horizonte e os rebanhos se começavam a acercar da aldeia, se juntavam num lugar que ainda hoje dá pelo nome de Laja do Escorregadoiro, para em conjunto brincarem um bocado, antes do regresso a casa, depois de um dia a calcorrear as serranias, a apascentar os rebanhos de ovelhas e cabras.

A brincadeira consistia em ver quem conseguia atingir mais velocidade a escorregar pela laja abaixo, que tinha uns bons cinquenta metros de comprimento e uma inclinação superior a quarenta graus. A laja ainda hoje apresenta uma faixa esbranquiçada, sinal das marcas deixadas pelas correrias da malta nova, montados nos ramos de giesta ou de urgueira, que eram guardados religiosamente de um dia para o outro, até porque como iam ficando cada vez mais polidos permitiam atingir maiores velocidades.

O problema surgia no final da corrida, quando por um qualquer percalço, desequilíbrio ou deslizamento incorrecto, o rabo saía de cima dos ramos e as calças pagavam o tributo à laja, mostrando rasgões mais ou menos extensos. Era um drama. Chegar a casa com as calças rotas implicava imediata repreensão da mãe e quase sempre um castigo físico por parte do pai.

É por isso que não percebo a moda as calças rotas que a malta nova de agora exibe com orgulho, para andarem na moda. É assim a vida. Nisto como noutras coisas. Antigamente, andar assim vestido era sinal de miséria. Agora, é sinal de riqueza. Estas calças são com toda a certeza mais caras do que as que não exibem buracos. E não são apenas os mais jovens que andam de calças rotas. A moda chegou às mães e até a algumas avós.

Quanto a mim, estamos a adulterar tudo. Estou como alguém que não recordo, mas escreveu algures: “tragam-me as calças intactas; eu ofereço-as para alguns países onde as pessoas não têm que comer nem que vestir. Depois de alguns meses a serem usadas, elas virão de novo para Portugal, para fazerem as delícias da nossa juventude e mesmo dos mais velhos, que, assim, podem andar na moda e praticarem um pouco o amor ao próximo, a nobre virtude da caridade.

2 – Petardos. Era apenas um caixote de petardos. O que é isso, quando comparado com os restantes caixotes, que não teriam sido assim tão poucos, que regressaram aos paióis do Exército, depois de terem desaparecido e, por milagre, talvez pela reza do responso de Santo António, foram devolvidos, por desconhecidos. Pelo menos até agora ainda não sabemos quem os fez desaparecer, talvez por um qualquer encantamento. E agora, por artes mágicas, reapareceram. Logo, tem razão o Ministro da Defesa: Em última análise, disse ele, talvez nem tenha havido roubo. Pois, agora, se os caixotes das armas até reapareceram, é porque não foram roubados. Estiveram apenas à guarda de alguém. O homem tem razão.

O que não cabe na cabeça de ninguém é ouvir o que veio dizer o Chefe do Estado-Maior do Exército. Foi apenas mais um caixote. Estava a mais no paiol. Só faltou dizer que até foi bom terem desaparecido as armas, para agora se descobrir que, afinal, havia um caixote a mais nos paióis do Exército. Coisa que não se sabia. Isto é mais caixote, menos caixote. Pois se as restantes armas também talvez nem sequer tivessem sido roubadas, o que interessa se agora apareceu mais um caixote. Caricaturando, foi pena que, em vez de petardos, não tenham sido mísseis. Era capaz de dar jeito. E sempre era material mais sofisticado. Vejam lá o que o Estado não poupava se em vez de petardos se tratasse de uma embalagem de mísseis. Ridículo, Sr. CEME. Já devia estar na rua. Ele e o Ministro.

3 – Incêndios. Marcelo, o Presidente da República disse que não confiava minimamente nos planos do Governo para o combate aos incêndios. Eu também não. Se não, veremos, no próximo ano, caso as condições atmosféricas sejam idênticas às deste ano. Para a semana, voltarei a este assunto. Não adiantarei muito, mas pelo menos desabafo.

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