Periscópio: decência na política exige-se

Opinião

1 – Currículos e moradas falsas. Em 25 de Agosto de 1770, foram criadas pelo Papa Clemente XIV, as dioceses de Penafiel e de Pinhel. Acabaram, em 30 de Setembro de 1881, por ser extintas pelo Papa Leão XIII.

Um dos bispos de Pinhel, Bernardo Bernardino Beltrão, era natural de Carapito, a aldeia beirã onde nasci. Rezam os livros que, para este Beltrão ser nomeado bispo, cumprindo as normas da Igreja, tinha de ser detentor de prédios com uma certa área. Tentava, assim, a Igreja evitar que alguém chegasse a Bispo e, não tendo com que s sustentar, andasse às esmolas ou se deixasse corromper.

Claro que, tal como hoje, uma coisa é a lei e outra a prática e sempre foi fácil contornar as disposições que regulavam e regulam estas situações.

Então no caso de D. Beltrão, a solução encontrada foi recorrendo à constituição do direito de superfície sobre uma extensa área de terrenos que na altura seriam baldios. Estamos a falar do final do século XVIII. D. Beltrão tomou posse em 1897 e esteve na cátedra de Pinhel por cerca de trinta anos. Mas o que Roma nunca soube foi que aquele prédio, que terá uns bons 100 hectares, era e é um terreno composto de monte onde os pastores apascentavam os seus rebanhos de cabras e os agricultores cortavam, e cortam ainda hoje, mato para estrumarem as terras. E assim permaneceu esse prédio em nome dos descendentes de D. Beltrão, até hoje.

Vem esta história a propósito dos nossos políticos, desde os deputados aos autarcas e governantes terem necessidade de aldrabarem currículos para chegarem a algum lado. E também de declararem falsas moradas para receberem mais uns cobres, para comporem os seus proventos de deputados ou de outros cargos que exerçam. Nem de propósito, um jornal semanário publicou na semana passada que um deputado pode receber até 5.000 euros em subsídios vários, como para deslocações e ajudas de custo.

Isto resolvia-se obrigando todos eles a demonstrarem que possuem bens suficientes para se sustentarem. Isto é, quem ia para a vida política não o fazia por necessidade, mas sim por amor à Nação, ao povo ou à República. Nunca por não ter onde cair morto, onde se governar, pois a grande maioria nem tem profissão conhecida, fazendo da política um modo de vida, o que vai contra tudo o que é o exercício do poder em prol do povo e para o povo. Defendo, aliás, há muitos anos que os políticos devem ganhar de acordo com o que ganhavam na sua profissão, estabelecendo-se um mínimo para os que começassem a vida política para dela fazerem profissão.

Todos sabemos e conhecemos muitos políticos que nunca seriam nada na vida se não se tivessem inscrito nos partidos e disso fizessem vida. Em todos os partidos. É que esta pecha das declarações falsas nos currículos e quanto às moradas falsas já vem de longe, como todos sabemos. Os escândalos maiores aconteceram quando o Professor Cavaco Silva obteve maioria absoluta, com muita gente que nunca imaginara ver-se como deputado, quando deu conta estava na Assembleia a viver à sombra dele e à nossa custa. E a partir daí o fenómeno nunca mais parou.

2 – Saúde. Pobres e ricos. Não passa um único dia em que a saúde em Portugal não seja notícia e infelizmente quase sempre pelas piores razões. É verdade que os nossos emigrantes também se queixam dos sistemas de saúde dos países que os acolhem. Mas aqui falamos dos nossos problemas. Imaginem uma pessoa com um problema grave num qualquer órgão, a necessitar urgentemente de exames e de uma intervenção cirúrgica. Detectada a doença em início de Março, os exames, designadamente uma TAC, foram marcados para o mês de Agosto. Não custa nada imaginar que, lá chegados, a intervenção cirúrgica certamente seria marcada para o ano que vem. Assim se morre em Portugal, onde o Sistema Nacional de Saúde (SNS) consome milhões e milhões do orçamento. Resta aos pobres morrer e safa-se quem quem tem dinheiro porque vai para os hospitais privados. Ou então quem pode recorrer à velinha cunha. É triste!

3 – Lia-se na semana passada no JN que a ponte Vasco da Gama, em Lisboa, ao fim de vinte anos, tem metade do tráfego que se previa ter. Sócrates queria construir a terceira travessia entre o Barreiro e o Beato. E continua ainda a dizer que ele é que tinha razão. E anda também o Partido Comunista, como fez ainda há poucos dias, a pedir a construção dessa terceira ponte. Afinal também gosta do betão, que tanto criticou a Cavaco silva. Quem diria!

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