Realidade e comunicação

Opinião

Consta que Salazar terá dito : « Em política, o que parece é ». Hoje diz-se que basta haver comunicação e o que for comunicado existe. Haverá, certamente quem o pense. E assim se conduzem as multidões.
Esta práctica faz recordar uma história que era contada na União Soviética da « Era Brejenev » (1964-1982), a seguinte :
O Transiberiano seguia ao longo da estepe. A certa altura, parou bruscamente. O maquinista desceu da locomotiva, caminhou até à cauda do comboio e bateu à janela de uma carruagem dizendo :
– Camarada Vladimir Ilitch Oulianov, os « Brancos » cortaram a linha.
De dentro da carruagem, Lénine (1917-1924) respondeu :
– Temos no comboio um vagão cheio de ferramentas. Mandem descer os passageiros, distribuam as ferramentas, organizem o trabalho e coloquem novamente os carris e as travessas no lugar devido.
Pouco depois, o Transiberiano retomava a sua marcha.
Já mais longe, o comboio parou novamente.
O maquinista voltou a descer, chegou junto à mesma carruagem e informou :
– Camarada Joseph Vissarionovitch Djougachvili, a linha está cortada !
De dentro da carruagem ouviu-se a voz de Estaline (1924-1953), o czar vermelho :
– Isso significa que temos traidores entre nós ! Fuzilem metade dos passageiros, a seguir ponham os restantes a reparar a linha.
Assim foi feito. E o comboio retomou a sua marcha até que, a determinado momento, voltou a parar. Pela terceira vez, o maquinista veio gritar para o interior da carruagem já referida :
– Camarada Nikita Khrouchtchev (1953-1964), não há linha.
E Khrouchtchev ordenou :
– Arranquem uma parte dos carris e das travessas que estão para trás, coloquem-nos à frente do comboio. Continuem assim sucessivamente e avancem.
Algum tempo depois, o Transiberiano parava pela quarta vez. O maquinista voltou a pedir ordens diante da carruagem depois de ter avisado :
– Camarada Leonid Ilitch Brejnev (1964-1982), já não temos mais carris nem mais travessas.
E do interior dos seus aposentos, o gerontocrata ordenou :
– Abanem o comboio para que os passageiros pensem que estamos a avançar……
O necessário era, naquela altura, que as pessoas acreditassem que se avançava para a sociedade perfeita.
O leitor sabe muito bem que nos nossos dias não falta quem continue a dar ordens (implícitas e explícitas) para « abanar o comboio ». Uma parte da Comunicação Social executa-as alegremente. Não podemos ser meros espectadores/consumidores do circo mediático. Somos cidadãos.

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