Só faltava esta marmelada!


Por: J. Ribeiro Aires

As avenidas hão-de servir para alguma coisa. Podem agradar aos olhos da alma, espraiados nas suas   longilíneas formas; podem ser salas de visita das cidades, embelezadas com formosos jardins, cheios de rosas e rotundas onde, numa delas,  se ergue o herói local; podem ser usadas  para o descanso do corpo em bancos de madeira desgostados dos seus dias de desprezo, sob os auspícios frescos e sombreados dos plátanos ou das tílias. Mas podem servir para outras coisas… para estacionamento de automóveis, etc.

– Só faltava esta marmelada aqui – vociferou carrancudo o dono da sapataria, fronteira ao Largo do Pelourinho, em cujos degraus se expunha quinquilharia para criança reclamar a compra em berreiro insistente até conseguir concretizar o sonho.

– Para o ano vou comprar uma daquelas estátuas – disse o empregado da Gomes a duas amigas que se tinham sentado na esplanada, endereçando o olhar às peças de arte negra encostadas no edifício que já foi Café Brasileira e, hoje, de portas fechadas, porque o Big Bob´s, que depois ocupou o espaço,  se mudou para outro reino capitalista.

– Já compraste cuecas? Eu comprei para o ano inteiro – pergunta  e afirmação de uma senhora com  ar elegante.

– Mas tu julgas que tenho dinheiro para gastar assim … – respondeu a outra que lhe fazia companhia.

– Olha lá… a grande coisa! Estão mais baratas que na feira dos ciganos. Vale a pena. Juro!

A Feira da Cueca!  Já foi a Feira dos Pucarinhos!! Agora!… Rua dos Índios da Meia Praia, Largo do Poço dos Negros…

– Mostra – exigiu a segunda.

– A mim não me servem, tenho o cu maior.

Efectivamente, constatei eu, rindo… Mas lá se foi a finura…

O dono da sapataria parecia nervoso. Atravessou o  Largo do Pelourinho  com um envelope  na mão e o empregado da Gomes não perdeu a oportunidade, para espetar uma alfinetada:

–  Essa  licença é para montar também um barraco?

Ele  levantou um polegar que, no caso,  não respondia sequer à questão. Deixei-me ficar ali na esplanada quase vazia,  que o ar corria fresquinho… Estava num ponto estratégico de chegadas e de partidas, de conversas que se ouviam… Crónica já tenho eu, olarila!

– Sabes que o C. ficou colocado na Cumieira?

– Eu não sei como é que aquele gordo…

Professores em horas de aflição! E como  eles estão com os esfíncteres apertados!

No céu amontoaram-se nuvens que começaram a despejar, sem grande continuidade, milhares de gotículas. Estava-se mesmo a ver que era tempo de fechar o último António Cabral, “Prometeu Agrilhoado Hoje”.

À noite, junto às colunas salomónicas da Capela Nova, tocava a Banda de Nogueira no “coreto” um ramalhete de peças de natureza variada, ao sabor de gostos diversos, numa alternância equilibrada.

– Ó Barreira, Barreiiiiiraaaaa.

Olha, olha!  Ali  no 3º andar, por cima  da Casa Real, vários olhapins…Será que o Barreira ouviria o Elísio Neves? A resposta não demorou. Assomou  à janela.  A “História ao Café” mudou-se para as alturas, registando novos subsídios para a História da Música… Dali gostava eu de tirar uma fotografia. Aqui em baixo  só fixo as cabeças… e o maestro de… traseira. Ah! Mas o Pires Cabral não me negará uma imagem aérea, não, não.

A meia noite chegou e a Quinta da Raposeira vomitou fogo para milhares de olharapos  de benta no ar, a  ver o que já viu,  como se nunca tivesse visto vez alguma. Vícios!  A cidade aguentou o bombardeamento final, sem inveja de Bagdad. Diga-se que o estrondo foi colossal e mereceu palmas.

Dia 29 abriu os olhos mal disposto, carrancudo, cinzento, ameaçador. O movimento na Avenida cresceu. A plebe e a gente fina metiam as mãos nas cuecas e tiravam os moldes a … às protuberâncias superiores…

– 12 pares a cinco euros, cinco euros por doze pares – grita quem queria vender.

Fora com o chulé.

– Oito pilhas, um euro, um euro por oito pilhas.

Que grande Quarta-Feira! Até a Gomes abriu! “ Aviso – Salão de chá. Em virtude  das Festas de S. Pedro, informamos os n/estimados clientes que estamos abertos Quarta-feira  dia 29 e encerramos Quinta-feira dia 30/06. A gerência”.

Voltei à rua.

– Então Liliana! E este S. Pedro?

– Sempre a mesma coisa. Virou cigano. Não tem sítio onde morar, ele e o Santo António. Mas enfim!…

E o dono da sapataria,  no Largo do Pelourinho, outra vez com dor no fígado:

– Nunca mais acaba esta marmelada!

Obs:  texto memória de 2008

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