Solenidade do Corpo de Deus celebrada em Vila Real

Esta solenidade, conhecida como Festa do Corpo de Deus, está profundamente enraizada na cultura popular, o que é bem manifesto na profusão de manifestações religiosas em várias comunidades. Embora o dia por excelência de comemoração da instituição da eucaristia seja a quinta-feira santa, a solenidade de hoje, permite-nos celebrar com alegria e com expressões exteriores e públicas este sacramento santíssimo da presença de Jesus no meio de nós. Desta forma os cristãos manifestam a sua consciência da riqueza do mistério eucarístico

Esta celebração festiva ajuda-nos a aprofundar e reforçar a nossa fé na eucaristia. Acreditamos que o Senhor Jesus nos deixou no sinal da pão e o vinho o memorial da sua páscoa. No momento decisivo da última ceia Jesus revelou aos discípulos a novidade deste novo e grande sinal: Tomar o pão e beber o vinho, em sua memória. Foi esta tradição que eles nos transmitiram e que São Paulo testemunha. Hoje de forma solene, bem como todas as vezes que nos reunimos à volta do altar para repetir o gesto de Jesus, reafirmamos a nossa fé no mistério da sua presença real e salvífica.

No cristianismo de hoje, feito cada vez menos de obrigações e mais de convicções, pese embora alguma redução de participação, também por força da diminuição da população e do efeito da pandemia, no entanto há sinais de redescoberta do lugar da eucaristia na vida do crente e da centralidade da celebração (dominical) na vida da comunidade. Assiste-se a uma progressiva valorização dos vários ministérios ligados à liturgia e a uma melhor preparação dos leigos para o respetivo desempenho. E nos últimos anos temos verificado ainda uma redescoberta da espiritualidade eucarística, com o incremento de momentos comunitários e pessoais de adoração ao Santíssimo Sacramento.

O «crescer com raízes», lema do centenário da nossa diocese, supõe uma melhoria no modo de celebrar e viver a eucaristia. Cumprindo a tradição que recebemos, precisamos de aplicar o melhor dos nossos esforços e meios para a

dignificação deste mistério sagrado. Não podemos cair na banalização da missa, na mera repetição automática ou apressada de palavras e gestos. Precisamos antes de tornar mais viva e consciente a participação de todos, de tornar mais profunda a vivência espiritual do clero e dos leigos, de tornar mais efetiva a comunhão que nos une a Cristo e, por Ele, aos irmãos.

O evangelho que escutamos nesta solenidade apresenta-nos o relato conhecido como «multiplicação dos pães». De modo significativo as ações de Jesus são muito próximas daquelas que realizou na última ceia: tomou o pão, deu graças, partiu-o e deu-o. Para a multidão faminta, a ação de Jesus tornou possível que o pão e o peixe chegassem para todos e até sobrassem. Da mesma forma a multidão dos crentes que em cada domingo se reúne na eucaristia é alimentada espiritualmente com o próprio corpo de Cristo, indispensável para o renovar das suas energias para cumprir a sua missão na história.

Na forma e no conteúdo há uma relação entre os dois episódios evangélicos o que nos permite estabelecer uma articulação entre a eucaristia e algumas situações humanas. De facto participar na eucaristia e fazer comunhão com Cristo e a comunidade dos seus discípulos implica um compromisso mais ativo e consciente na vida da sociedade. O primeiro passo, tal como no evangelho, é o da atenção às necessidades e carências dos que nos rodeiam. Sejam famílias em dificuldade, idosos mais isolados, pessoas sem-abrigo ou sem rede de apoio, é necessário estar atento, escutar cada história e sentir compaixão pelas pessoas e seus dramas.

O evangelho apresenta-nos ainda dois importantes ensinamentos de Jesus a este respeito: «Dai-lhes vós de comer…», «mandai-os sentar em grupos de cinquenta». Face a situações de maior gravidade é necessário que todos se sintam comprometidos e ajam de modo organizado. Os meios podem parecer escassos e os problemas de grande dimensão mas o milagre começa sempre com a capacidade de implicar e mobilizar as pessoas e na capacidade de reunir esforços, articular respostas e organizar soluções. A história passada e alguns casos mais recentes, na Igreja e na sociedade têm provado a pertinência destes ensinamentos.

As palavras decisivas de Jesus surgem nesta sequência: tomou o pão, pronunciou a benção, partiu-o e deu-o. Como Ele fez naquele dia e depois na última ceia e como se faz em cada eucaristia, em primeiro lugar é necessário tomar o pão agradecê-lo ao Pai do céu. Depois é preciso partir para que assim chegue para muitos mais, abdicando de ficar com tudo para si. Partir, repartir e dar traduzem o modo concreto de agir de quem se inspira no exemplo e no espírito de Jesus.

A meditação sobre este evangelho adquire maior atualidade neste contexto que vivemos de agravamento da situação de vida de muitas pessoas e de aumento dos riscos de uma crise alimentar. Não se pode deixar de denunciar, antes de mais a perversidade e a malvadez que representa o privar as populações de bens essenciais. É necessário também censurar eticamente todas as atitudes oportunistas da especulação movida pela ganância. Nesta circunstância, mais do que nunca é imperioso partir e repartir, dar e distribuir. Estas são atitudes não só cristãs mas dignas da humanidade.

O milagre de Jesus naquele dia gerou vida, foi sinal de esperança, exemplo de autêntica caridade. Em cada eucaristia se renova o milagre da sua presença que nos enche de vida, renova a nossa esperança e nos fortalece para continuar o seu caminho que é sempre promessa de felicidade e paz para toda a humanidade. Que a sua presença sacramental e a sua passagem pelas ruas da nossa cidade nos abençoe e nos proteja de todo o mal.

D. António Augusto Azevedo

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