Talentos inúteis

Caseiro Marques

Por: A.F. Caseiro Marques

1 – Da estória política brasileira vem um dito popular famoso, atribuído a um certo político de quem se disse que “ele roubou, mas fez!” Trata-se de alguém, como se subentende que se fartou de roubar, mas deixou obra feita. 

Não é coisa que não conheçamos entre nós. Muitos políticos portugueses têm feito obra, apesar de roubarem e deixarem os seus amigos roubar também. E não é apenas na esfera pública que tal acontece.

Também ao nível da esfera privada, há pessoas, que por índole, uns, ou por incompetência, outros, fazem desaparecer o dinheiro das empresas e das instituições que gerem, mas não se vêem os resultados, ou estes são demasiado escassos, dos gastos inúteis em obras sem préstimo ou de valor reduzido para a comunidade ou para as pessoas a quem se devia dirigir a sua actividade empreendedora.

Assim, bem se aplicam nestes acasos as palavras do Evangelho, que a maioria conhece – e que quem não conhece não perderia nada se conhecesse – e principalmente as pusesse em prática. Trata-se da parábola dos talentos. Nela se explica que quem recebe talentos os deve pôr a render, e não enterrá-los na terra, em obras sem préstimo, das quais não se vislumbra o resultado prático para as instituições ou empresas que servem.

Mesmo assim, lá aparece sempre alguém a dizer que “ele até fez obra!”. E com tais palavras se procura contrariar a eventual discordância ou oposição a essa vontade gastadora, por vezes quase obsessiva, e acaba por serenar os ânimos de alguns mais distraídos ou, pior ainda, de uns quantos interessados que ganharam ou ainda esperam tiveram algum proveito, com aquelas acções dos que, dessa forma, desperdiçaram o dinheiro que lhes foi entregue para bem administrarem.

Vem isto a propósito dos muitos milhões que Costa se prepara para receber da União Europeia. Mas vem também a propósito de todos aqueles a quem foram disponibilizados meios económicos ou financeiros e que os malbarataram, sem honra nem proveito, já não digo “em mulheres e vinho”, como disse o outro da Dinamarca – até porque há quem desses tais nem sequer beba vinho -, mas de forma completamente despropositada, sem qualquer proveito para as instituições que deviam servir e que não sabem governar.

2 – Ouve-se e quase não se acredita. Digo quase, porque, simplesmente, sei que é verdade o que ouço, hã muitos anos.

Fica aqui o registo da minha admiração pela grande maioria dos funcionários públicos, que merecem o que ganham e muito mais. O Governo quer colocar os trabalhadores ao seu serviço onde eles fizerem falta.

Mas logo vêm os sindicatos dizer que isso não é admissível. Ou seja, segundo alguns sindicalistas, quem dá emprego ao trabalhador, permitindo-lhe ter a sua vida financeira estabilizada, mais do que qualquer outro trabalhador do privado, não pode dizer a esse servidor do Estado que, porque faz falta o seu contributo noutro lugar, ele terá de se deslocar para lá. Acrescentou alguém, eu ouvi bem, que “o Estado não pode mudar o local de trabalho do seu trabalhador, segundo as suas conveniências”. Vamos ver se entendi bem: o local de trabalho do servidor do Estado tem de obedecer às conveniências do trabalhador. Ou seja, à boa maneira socialista ou comunista, como quiserem, a função pública existe em benefício dos trabalhadores que a integram e não para estar ao serviço dos que presumidamente deve servir e que lhes pagam, que somos todos nós, os cidadãos. Entenderam? Isto para os que estão bem instalados, integrados nos respectivos quadros.

Só pergunto porque razão o senhor Mário Nogueira e outros sindicalistas encartados – pois alguns não sabem fazer outra coisa – nunca se preocuparam durante estes cinquenta anos, desde o 25 de Abril de 1974, com os precários do Estado e com dezenas de milhares de professores, que, durante dezenas de anos, têm de concorrer e ir parar a Alguidares de Baixo, conforme as conveniências do dito Estado.  

3 – Quem de entre nós seria capaz de ao ser convidada a deixar o seu país, rasgaria o seu passaporte para não pode entrar num país estrangeiro? Quem o fez foi Maria Koleniskova, a actual líder da oposição bielorussa, depois da partida para a Lituânia da vencedora das eleições naquele país. É preciso ter muita coragem para, perante o que resta das forças da repressão proto comunista daquele país rasgar o próprio passaporte na cara dos esbirros ao serviço do regime e dizer-lhes na cara: “ não saio do meu país porque não tenho passaporte válido para me poderem expulsar!” Estes são os heróis e não os que se comprazem com jogadas e malfeitorias e guardam silêncio perante as prepotências de dirigentes que se servem do poder para amesquinhar quem lhes faz frente. Detesto ditaduras!

4 – António Costa diz que o facto de integrar a lista de apoio à recandidatura de Luís Filipe Vieira, o presidente do Benfica, não tem nada a ver com a vida política. Ele diz que não e nós podemos dizer que sim, por mais que ele insista e não goste – Costa reage muito mal quando alguém o confronta com certas atitudes criticáveis – que lhe atirem isso à cara. Ele, Primeiro-ministro integra a lista de apoio de um indivíduo que ficou a dever centenas de milhões a um Banco, que os portugueses estão a pagar. Continuem a votar em gente como esta…

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