The Big Brother is watching you…

Por: João Madureira

Vivemos, segundo a socióloga norte-americana Shoshana Zuboff, em plena era do “Capitalismo da Vigilância”, numa nova ordem, e numa nova lógica, económica parasitária que nos subordina a uma modificação comportamental e a uma nova ideologia coletiva baseada na certeza total.

A verdade é que já não sabemos se residimos em casa ou no exílio, se somos senhores ou servos, cidadãos ou verbos de encher.

As pressões competitivas que instituíram causaram toda esta mudança.

Uma pergunta se levanta: Qual o futuro humano no mundo digital?

As tecnologias da informação e da comunicação estão mais disseminadas do que a própria eletricidade, alcançando três mil milhões de pessoas, numa população mundial de sete mil milhões.

Antigamente eram os cantos dos pássaros que nos embalavam ao deitar. Agora são as luzinhas e os ruídos irritantes dos diversos utensílios informáticos que nos rodeiam e que estão permanentemente ligados à Internet.

The Big Brother is watching you. O Grande Irmão Capitalista não só conhece o nosso comportamento individual como modela e condiciona o comportamento das massas. O modelo mais paradigmático é o chinês.

Os novos mercados, e os respetivos investidores e negociantes, adquirem as fontes que preveem as nossas vozes, as nossas personalidades e as nossas emoções. E não se coíbem de intervir até nos nossos novos comportamentos, tentando conduzi-los para resultados ainda mais lucrativos.

Dos fluxos de informação totalitária passaram para a nossa própria automatização.

Atuamos mais rapidamente do que aquilo que pensamos.

Os novos agentes de mercado estão agora apenas empenhados na intensificação contínua dos meios de modificação comportamental e na capacidade recoletora do poder da instrumentalização.

Como defende Shoshana, “ao invés do trabalho, o capitalismo de vigilância alimenta-se de todos os aspetos inerentes à experiência humana”.

O mais preocupante é que os “capitalistas da vigilância”, envergando as vestes populares da boa e velha defesa das causas e da emancipação, fazendo um apelo direto às inquietações contemporâneas, passaram a explorá-las, enquanto a história verdadeira se desenvolve nos bastidores.

Afinal, somos todos utilizadores aficionados do Facebook, da Google e da Netflix. Por isso é que eles sabem o momento em que corremos por lazer, conversamos ao pequeno-almoço, passamos na autoestrada, vamos ao restaurante, passeamos no centro comercial ou estacionamos o carro. Este mundo inteligente faz-nos pagar, de forma subtil, a nossa própria submissão. Eles moldam-nos e vendem-nos depois as nossas próprias experiências em caixas apelativas.

A necessidade de termos uma vida eficaz entra em conflito com a tendência humana para resistirmos às incursões tecnológicas, quase sempre abusivas.

Este conflito, como salienta Shoshana Zuboff, “cria um torpor psíquico que nos habitua à realidade de sermos rastreados, analisados, minados e modificados. Faz-nos racionalizar a situação com cinismo resignado, inventar desculpas como mecanismo defensivo, (do tipo: nada tenho a esconder) ou encontrar outras formas de enterrar a cabeça na areia, preferindo ignorar por mera frustração e sentimento de impotência”.

Ou seja, somos como insetos obrigados a abanar as asas enquanto nos emaranhamos na teia da aranha.

Os capitalistas da vigilância sabem tudo sobre nós. E até muito mais do que nós sabemos sobre nós próprios. Apesar da troca de informações, eles são-nos, pura e simplesmente, desconhecidos.

São capazes de prever o nosso futuro, mas para o seu próprio benefício.

Há já uma nova fronteira do poder que está bem para lá dos limites da democracia. E isto não é normal. Mas o grande problema é que nos habituámos à normalização da anormalidade.

O capitalismo da vigilância não se reduz à tecnologia. Mas aposta quase tudo no seu controle. Baseia-se na lógica que impregna a tecnologia e condiciona o seu uso.

Apresentam-nos as práticas do capitalismo de vigilância como se fizessem parte de algo que é inevitável. Mas, por mais que doirem a pílula, são apenas meios meticulosamente calculados e principescamente financiados para servirem fins comerciais próprios. 

A inevitabilidade tecnológica não existe. É apenas um meio. Nunca será um fim.

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