Tire máscara ponha máscara à hora que quiser

Por: Ribeiro Aires

Sebastiana estava farta, fartinha de estar em casa, retida por uma pulseira virtual que só lhe permitia ir à farmácia, padaria ou ao supermercado. Estava cansada desta semi-clausura, mas percebia-lhe necessidade, não fosse vítima de um choque aéreo, sem  perceber sequer  a gravidade do impacto com um ser estranho, silencioso e invisível que, entrando-lhe pelas vias respiratórias, desse azo à sua alegria como peixe na água ou macaco  num braço de bananeira, para não falar em outros exemplos de festa, uma vez instalado no quentinho das células.  Estava enfadada dos dias parvos e temidos. A sua família era o melhor bem do mundo: marido atencioso, filhos encantadores.  Bernardo, como ela, estava em teletrabalho. Os filhos, Pedro (17 anos), Joana (14) e Sílvia (10 anos) davam-se super-bem.  Cada um criou as suas rotinas, novos hábitos  familiares: pequeno almoço às 10, exercício físico às 11, depois  leituras até ao almoço; um pouco de televisão à tarde e à noite; jogos diversos – monopólio, damas, xadrez, cartas,  conversas com os amigos e familiares pelo whatsaps, skype, etc.  Mas porque os dias não são todos iguais e na terra não há paraíso nem perfeição, com o passar dos dias o  vírus infectava  as mentes. Aborrecimentos, pequenas birras e desentendimentos iam aparecendo agora e logo.  O confinamento e a sua natureza  começavam a moer.   

– Que o primeiro ministro apareça com boas ideias – suspirava  Bernardo que fizera do quarto o seu escritório, enquanto Sebastiana tinha campo livre na sala.

Maio trouxe ao alunos  dos 11º ano  e  12º anos às escolas. Pedro ficou  mais satisfeito que a mãe.

– Bernardo, não sei se é boa ideia  deixar  ir o Pedro às aulas presenciais.

– E por que não? – Discordou Bernardo. – Não és tu que estás cansada de ter os três em casa?

– Si, mas…

– Mãe, não vai acontecer nada – atalhou o filho. – E eu já tenho saudades dos meus amigos e sou crescidinho.

–  Saudades dos amigos e da Beatriz, porque não o dizes? –  sussurrou Joana.

-Da Beatriz, da Marta, do Jorge, da Rita…Saibam todos. Ó mãe, tu não queres estar com as tuas colegas, mesmo usando máscara? –  A mãe olhou para ele e os seus olhos e leve sorriso deram-lhe a resposta..  Pois que fosse. Ela também iria.  Não deixava de ficar apreensiva, mas a vida tinha de ter o seu curso normal.

Carlota Joaquina, filha de pai realista,  transportava consigo um nome histórico. Era professora de Biologia, contrariando o pai, que gostava que ela fosse uma historiadora soberba, capaz de dar cartas em conferências e debates pela causa monárquica. Carlota estava preocupada com a abertura das escolas. Aguentara as aulas por videoconferência, mas era tudo muito impessoal, muito frio e complicado. Faltava-lhe ver  dos  alunos os sorrisos,  esgares, amuos, as suas distrações e mimos jocosos entre eles e logo as suas advertências. Muito gostava ela de lhes dar uma pequena repreensão quando se distraiam ou diziam disparates. Faltava-lhes a conversa com as amigas, as piadas que originavam grandes risadas. “Da Escola faz-me falta tudo”, comentava com uma colega ao telemóvel. Agora percebia melhor o que para ela representava a escola. E o dia chegou. Lá foi ela entre o apreensiva e a prazer de voltar  à vida.

Tudo estava muito bem organizado. Tudo e todos a cumprir as regras. E todos expectantes. Como é que ia ser aquela primeira aula?  Esquisita, certamente. Estavam todos escondidos atrás de uma máscara. Pelo menos viam-se os olhos.  Ela com máscara e viseira. E começou a falar. Deu-lhes o bom dia. E ouviu, em uníssono  uma resposta surda, que lhe pareceu distante. Mas soube-lhe bem.  A aula ia começar.  Ela usava óculos e mal pronunciou as primeiras palavras, ficou com os eles embaciados. Fez uma pausa. Voltou a falar e repetiu-se o mesmo. Ela já sabia que isso ia acontecer. Por isso, tirou os óculos. Mas caiu-lhe a viseira. Debruçou-se para a  apanhar, caiu-lhe a máscara.

– Ó professora, então? Não colocou bem os esconderijos – riu-se Pedro e riram-se todos.

– Se calhar, não – respondeu ela.

O certo é que a cena se repetiu  mais que uma vez. Para primeiro dia e primeira hora já tinha valido a pena  ir à Escola. E foi então que  Pedro, de repente, se lembrou:

– Ó professora, conhece aquela canção

Tire a máscara, ponha a máscara, quando  quiser

 Qu’a máscara não fica bem num rosto de mulher

Tire agora ponha logo, de manhã e à tardinha

– Então, Pedro ? – interrompeu a professora.

– Ó professora, queremos saber como é que isto vai acabar

– Não acaba nada. Olhe o disparate – disse rindo. Naquele momento tocou a campainha.

– É melhor é.  Sabe uma coisa –  concluiu Ricardo, perante uma bem disposta e divertida risada geral – Eu acho que, se calhar,  ele ainda ia acabar, à noite, na “garagem da vizinha.”

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