Trabalhar em cima do joelho

Por: Filipe Ribeiro

A assessoria mediática ou assessoria de comunicação está, hoje, presente em inúmeras organizações, desde as instituições do Estado a empresas, passando pelo associativismo, em domínios como o desporto ou a cultura.

Orientar a comunicação e dar apoio a órgãos de comunicação social (OCS) (daí chamar-se assessoria), com vista a uma maior eficácia da mensagem, está entre as estratégias adotadas pelas equipas de comunicação e relações públicas que, em algumas autarquias, superam as redações de muitos jornais.

Recentemente, este “fenómeno” chegou ao desporto, com maior relevância no futebol. Começou com os clubes profissionais, da primeira e segunda ligas, e, mais recentemente, à maioria dos clubes de competições semi-profissionais, organizadas pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Até em competições distritais podemos encontrar profissionais de comunicação ao serviço dos clubes. O crescimento destas equipas devia justificar-se, apenas, pela necessidade de os clubes ganharem mais espaço na comunicação social.

Embora o objetivo das assessorias não seja substituir-se aos OCS, assiste-se atualmente a fenómenos como a transmissões integrais de jogos de futebol, em exclusivo nos canais dos clubes, incentivada pelo Canal 11 da FPF, a transmissão em direto de conferências de imprensa pelos próprios clubes, ou a publicação de comunicados de imprensa em redes socias, quando dantes era enviado diretamente, e em exclusivo, à imprensa.

Se transportarmos este fenómeno para a realidade local, vemos que este excesso de cobertura mediática leva a uma tendência de inversão de papéis. Senão vejamos: no passado domingo, dia 7 de março, o SC Vila Real recebeu o Trofense para o Campeonato de Portugal. E, como tem acontecido em jogos anteriores neste recinto, a comunicação social regional, que desde sempre acompanhou o clube, viu-se atirada para a bancada, onde normalmente ficam sentados os adeptos, isto porque já não há espaço no local dedicado à imprensa. Neste local estão agora instaladas diversas câmaras de filmar e os técnicos que acompanham o clube.

Deste modo, o trabalho do Notícias de Vila Real, A Voz de Trás-os-Montes e Universidade FM foi feito literalmente em cima do joelho pelos colaboradores dos respetivos OCS. Se, por um lado, no passado, estas equipas de reportagem foram habituadas a trabalhar em terrenos difíceis, em campos sem as mínimas condições, por outro, acompanhar o SC Vila Real sempre foi sinónimo de um trabalho mais digno, quer no Monte da Forca, quer no Campo do Calvário, pelo menos até agora.

É importante manter por perto a comunicação social e dar-lhe condições dignas para que possa realizar o seu trabalho. Substituir-se no papel de informar pode dificultar a mensagem e não é augúrio de um bom relacionamento futuro.

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