Uma sociedade de futilidades


Por: Caseiro Marques

Não conhecia o médico que morreu da doença Covid 19. Tratava-se do Dr Vítor Duarte, do Hospital de S. José. 

Igualmente, não conhecia o actor Pedro Lima, que participava em novelas de uma estação de televisão.

Mas vi e ouvi as homenagens que foram feitas e as palavras que foram ditas em relação a um e a outro destes portugueses, publicamente, quer por pessoas gradas da sociedade portuguesa, a começar nos mais altos dirigentes do Estado e designadamente do Presidente da República, passando depois a diversas entidades da sociedade civil.

O tal actor Pedro Lima até teve direito a minuto de silêncio, pelo menos num jogo de futebol. As rádios, televisões e jornais fartaram-se transmitir a reacções dessas personalidades. Todas muito consternadas com o desaparecimento do artista.

O Pedro Lima terá, segundo li, desistido da mulher, dos filhos (eram cinco), da profissão, de viver, ao que ouvi e li, por a empresa que lhe pagava seis mil euros de ordenado, por causa das dificuldades que todas as empresas e os portugueses atravessam, lhe ter proposto a redução do salário para metade.

O médico foi logo esquecido e a notícia da sua morte não mereceu mais do que uma nota de rodapé nos mesmos órgãos de comunicação social.

Não ouvi uma palavra da parte dos responsáveis políticos deste país. Não quer dizer que não o tenham feito, mas eu não os ouvi. Se o fizeram eu não ouvi.

E, no entanto, esse médico serviu Portugal e tratou da saúde os portugueses ao longo da sua longa carreira. Tinha 68 anos de idade. E faleceu infectado depois de se dedicar ao tratamento de doentes atingidos por esta terrível doença, que neste momento afecta toda a humanidade. Um símbolo do que representa a obra de misericórdia que dá exactamente pelo nome de “humanidade.”.

Não está em causa o valor de cada um destes portugueses, que à sua maneira viveram e serviram igualmente Portugal. Cada um deu o seu melhor.

Mas não queiramos comparar a vida e a importância da perda de cada um deles. E essa importância para o conjunto da sociedade portuguesa está espelhada naquilo que cada um fazia.

Pergunta-se, por isso, quem seria mais importante deles. O Pedro Lima ou o médico Vítor Duarte?

Então, por que razão esta discrepância nas homenagens que foram prestadas a um e a total ou quase total falta de referência a outro?

É assim que neste momento se vive em Portugal. Estamos a criar uma sociedade que vive de futilidades, de notícias inúteis ou que nada de bom nos trazem.

Mas há muita gente que assim pensa e assim age.

Todos os dias vemos cenas destas na comunicação social.

Haja em vista as declarações dos Ministros, do Primeiro-ministro e do Presidente da República.

1 – PROPAGANDA. Marcelo continua a sair de Belém, todos os dias, para fazer a sua propaganda, sozinho ou ao lado de Costa. Como escrevi na semana passada, se o palco existe aproveita-se. Se não existe cria-se, seja onde for e por que motivo for.

O que interessa é aparecer todos os dias.

Mas conforme já aconteceu noutras alturas, quer um quer outro fogem dos locais onde se joga a vida humana, onde se sofre e podem surgir problemas, onde os problemas mordem e os factos contradizem a propaganda que um e outro andam a espalhar pelo país.

Por exemplo, gostava de ver Marcelo e Costa, desde o início da pandemia nas urgências dos hospitais e, neste momento, a viajar nos comboios e camionetas das que servem as populações das freguesias da cintura pobre de Lisboa, aquelas que eles confinaram, por ser aí que se verifica o maior número de casos de Covir, que está a contrariar os seus planos.

Assim é que mostrariam coragem e vontade de conhecerem e resolverem os problemas das pessoas concretas e do país.

Não é fugindo aos problemas que eles se resolvem. É enfrentando-os e conhecendo a vida concreta das pessoas, da sua vida diária, nos locais de trabalho, nas deslocações e nas casas onde vivem. Não é com os palcos montados propositadamente, para fazerem a sua propaganda, normalmente, falaciosa e mentirosa, entediante e por vezes, até humilhante, para quem vive com ordenados miseráveis.

Oxalá que o COVIR os faça pensar e alterar o que está mal na sociedade em que vivemos.

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