Uma torrada… e um copo de vinho

Por: Ribeiro Aires

A Tempestade Alex passara sem ter feito estragos de maior. Por cá, algumas árvores derrubadas e pouco mais. O céu já acalmara. O primeiro fim de semana de Outubro era de bons auspícios. Refrescara apenas um pouco. Começara o Outono e, por isso, nenhuma admiração. Haveria vindimas retardatárias, não por vontade do proprietário, mas pelo calendário imposto pelas adegas,  «donas» do tempo desta colheita, que para uns será «graça», para outros «desgraça». Mas que fazer? A vida é como é e nem sempre como a gente quer.

Afonso comprara, como habitualmente, o «seu» jornal de sábado, no quiosque a poucos metros do estabelecimento de cafetaria  onde todos os sábados costumava tomar  café, fosse na esplanada, se a lotação  ou  do clima permitiam,  fosse no  seu interior.  Em dias de pandemia, como os de agora, estar ao ar livre era o mais apetecível. Mas não teve sorte. Não sobrava  mesa na esplanada.  Todo interior  é envidraçado. Nunca nele se fica fechado, porque, com o olhar, se está em contacto com o que se passa no exterior, se dali quisermos ter a visão dele. A televisão costuma estar sintonizada num canal de música. Sempre ajuda à leitura.  Afonso  colocou a máscara, ultrapassou a porta de vidro e foi sentar-se numa mesa à esquerda do balcão, que divide  o espaço em duas partes desiguais. Do saco de papel plastificado, colorido e recheado de figuras da SIC, que dentro de dias era aniversariante,  tirou o primeiro caderno do Expresso e a Revista. Como manchete daquele, uma sondagem sobre as presidenciais, como assunto principal da revista  uma entrevista  à cientista Elvira Fortunato.  Entretanto, já A.  lhe dera os bons dias, colocando-lhe o café num canto livre da mesa.

Os clientes entravam e saiam, uns com máscaras, outros sem elas, alheios ao cartaz, que colocado na porta de entrada, impunha o uso de máscara. Colados ao balcão, conversava-se. Era um tu-cá-tu-lá com quem os servia, como  o conhecimento mútuo os libertasse de responsabilidades, os não obrigasse a cumprir as normas exigidas em qualquer espaço interior.

– E a máscara, pá – refilou A.

O visado ria-se, como fosse superior a essa imposição. Talvez  se julgasse Trump.

– Se não queres usar máscara, vai lá para fora – fitou-o A.

– E tu achas que, se vim aqui, tenho Covid?

– Não acho, nem “desacho”. Mas o diabo pode achar que sim. Se eu tenho de a usar, tu também tens. Entendido?

O outro ria-se, como se A. estivesse a dizer disparates.

Quem entrou com máscara, foi uma senhora septuagenária,  meã de altura, rosto enrugado pelo tempo e, certamente, pelas agruras da vida, porque todos as têm. Trajava roupa escura, como, quiçá, a revelar-nos a sua solidão. Era aldeã, sem dúvida, vinda, talvez, dos povoados do Alvão. Dirigiu-se ao balcão, fez o seu pedido, voltou-se e procurou lugar para se sentar. Havia mesas vazias mas, mesmo ao lado, numa outra, estava sentado S., e uma  cadeira permanecia  livre. Maria, assim a chamaremos, sem pedir licença, puxou a cadeira e sentou-se. O café, como estabelecimento comercial, é casa de todos, mas nada ali é propriedade do cliente. Ela entrou como qualquer um, sem ser necessário que, de dentro, alguém lhe tivesse dito  “entre quem é”. À distância que estava Afonso  não percebeu se ela pediu ou não licença para se sentar. S. é que não se mexeu, tão concentrado estava a usar o telemóvel. Terá percebido, certamente, o momento e compreendera o «ser» que, na sua simplicidade, com toda a naturalidade do mundo, se sentou à sua frente.

Maria ficou em silêncio, olhando o que se passava lá fora. Em que pensaria ela? Nos males do mundo? A pensar na sua vida?  E que vida seria?  Que problema a afligiria? Num filho ou filha que vivia na estranja?  Numa neta que não conseguia emprego? Porque estaria ali, num sábado, acompanhada pela sua bengala, que encostou à parede? Teria vindo à fisioterapia?  Fosse para o que quer que fosse, sentira necessidade de aconchegar o estômago quando este protesta e reclama alimento.

  1. serviu-lhe a meia torrada solicitada. S. aproveitou para se retirar e deixar que Maria saboreasse aquele pequeno almoço, certamente pouco frequente no seu dia a dia aldeão. Como mulher do campo estava afeita  a outros aconchegos, mesmo matinais. Depois da segunda tira de pão, porque  o hábito faz o monge, sem qualquer tipo de constrangimento, rodou  45 graus, levantou um nadinha a voz e pediu:

– Traz-me um copo de vinho?

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