Vila Real é cidade há 95 anos

Por: Ribeiro Aires


Vila Real faz anos duas vezes por ano. A primeira, em 4 de Janeiro, que é aniversário que (quase) ninguém lembra, porque antes houve o Natal e o Ano Novo e a seguir vêm os Reis que é tempo de cantoria e o aniversário da menina não tem direito a apagar as velas. Não fica zangada, porque já se habituou, mas fica triste.

Nesse tal dia, em tempo frio, D. Dinis, seguindo os passos de seu pai, Afonso III, mandou redigir uma carta de foro, para  que, no promontório entre o Corgo e o Cabril, se fundasse uma “pobra” com o fim de ser «cabeça» de toda a Terra de Panóias, tirando a Constantim a capitalidade da região. E assim foi. Estava-se no ano de 1289. Onde é que já vai isso! Só Matusalém tinha mais idade. Mesmo assim, é sempre bom recordar, porque se somos o que hoje somos é porque tudo começou nesse Janeiro. Um dia, para que se lembre o aniversário, alguém contrata uma banda de música e a põe nas ruas da cidade a tocar os parabéns a você e na «nova» Avenida haverá, num dos futuros bancos corridos, um bolo de aniversário, ou então uma cestas de covilhetes e cristas de galo – uma das sete maravilhas da doçaria nacional.

O segundo dia de anos também não se festeja este ano, no próximo dia 20. A Covid19  decretou que nem a D. Constança, nem outra pessoa qualquer faz este ano festança. Não há medalhas para ninguém, nem o presidente da Câmara, no discurso do «estado da “ação vila-realense”,  explana os sucessos de mais um ano de mandato, nem a oposição fica com otites ao ouvi-lo, nem com a boca seca, nem azia estomacal, ao lhe ser lembrada a sua silenciosa travessia do deserto, reclamando água, mas não levando sequer cantil para a receber.

Faltam cinco anos para o centenário da elevação de Vila Real à condição de cidade. Vila Real já desesperava. Bragança (1464) e  Miranda (1545)  há muitos anos que eram cidades e com menos população (1864 – Bragança, 161. 459 hab/distrito; Vila Real 218.320hab/distrito; 1900 – Bragança, 184. 662/distrito; Vila Real, 240.515/distrito).

Não era justo continuar com a velha roupagem. imerecido. Se havia  a Casa de Bragança (não extinta), o desaparecimento da Casa de Vila Real, a segunda do  país, a seguir àquela, teve uma mãozinha  de D. João IV.  Já o século XIX contava os dias dos anos vinte,  quando a vereação  municipal,  no dia 20 de Agosto de 1823, em pleno período contra-revolucionário (iniciado em Vila Real), solicitava a D. João VI que Vila Real alterasse o seu estatuto de vila, já com barbas a chegar aos pés. Lembravam  terem sido “os primeiros que aclamaram  a El Rey Nosso Senhor com restituição dos Seus Direitos em vinte e três de Fevereiro”.  Que El-Rey  se dignasse  “elevar esta Vila Real a ser Cidade Real com a criação  de um Bispo com rendas suficientes e com o particular Cabido e Sé e Cónegos separando-se do distrito do Arcebispado de Braga”etc. Deduz-se, pela não satisfação do pedido que  El-rei  nem considerou a fidelidade jurada, nem quis saber dos feitos do general Francisco da Silveira, do filho,  irmão e cunhado a favor do absolutismo. É que, primeiramente, era necessário criar a Diocese de Vila Real e isso requeria passos importantes junto da Santa Sé.  Tirar território e rendas a Braga? Pois sim. Se ele conhecesse o Asterix (que ainda havia de vir)  era bem capaz de dizer o  este que  dizia dos romanos: «estes transmontanos estão loucos». O desejo afundou-se nos abismos do Douro (melhor seria dizer Tejo). Passaram-se quase cem anos e os vila-realenses contentaram-se com a sua pequena «bila». O assunto havia, contudo, de emergir da fundura do esquecimento por iniciativa do Arcebispo de Braga, D. Manuel Vieira de Matos, nascido em Poiares, que, a 3 de Janeiro de 1917, em Lisboa, propôs a criação de uma nova diocese que coincidisse com o distrito de Vila Real. “Perdera a cabeça”, digo eu. É que Braga mandava até Miranda, excluindo Lamego e as terras de Foz-Coa, nas mãos da velha Guarda. Mas, consultados os bispos daquelas dioceses foi criada, pelo papa Pio XI, a diocese, pela bula Apostolica Praedecessorum Nostrarum sollicitudo, de 20 de Abril de 1922. 

Vila Real, que já era capital de distrito (1836), já podia ser cidade, o que aconteceu a 20 de Julho de 1925. Finalmente!

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