Vola, colomba bianca, vola…

Por: João Madureira

Os portugueses continuam a comer de mais. O que, como nos ensina a História lusa, era um vício apenas ao alcance dos fidalgos de província, fidalgos esses que se distraíam a comer e a procriar.

Nesse tempo caçavam-se os coelhos à mocada. Ia-se de noite com os candeios pelas bermas a roçar o mato. Então os coelhos, tontos, saíam das suas tocas. Depois era dar neles com toda a força e agilidade, disparando-lhes rajadas de bordoadas. No final, era só empilhá-los e ordenar aos criados que os levassem para casa. A verdade é que a coelhada dava cabo das hortaliças e comia a fruta que caía das árvores.

Nessa época, as noites aristocráticas eram estreladas e pontilhadas de entusiasmo. Os mais fidalgos dos fidalgos, para espanto e admiração do povo, eram capazes de dominar a populaça mais arrivista, fazendo zunir varapaus e fueiros. A fidalguia era muito lesta a aguentar os embates e a desembaraçar-se de problemas.

Os cavaleiros andavam quase sempre metidos com bruxas e as suas esposas com os escudeiros ou os pajens.

Tanto os cavaleiros, como as suas amadas damas, eram muito bons nos monólogos. Gostavam de caminhar nos seus jardins de forma abstrata.

A verdade é que os próprios rios emitiam sinais de amor. Por vezes, os fidalgos levavam para as praias papagaios de papel e corriam com eles dando-lhes a guita adequada para poderem flutuar e alegrarem os céus. Dizem que se divertiam imenso.

Os tais fidalgos dedicavam-se não só à caça, mas também à pesca. E ouviam muita missa.

Por vezes apareciam as pestes como castigos divinos. E o povo morria asfixiado, ou com gripes de catarro negro. Era uma tragédia. Os que sobreviviam, acabavam por emigrar. Era difícil resistir a tanta devastação.

Dizem que nesse tempo as árvores descansavam durante a noite, os peixes brincavam ao eixo e os pássaros pousados nos ramos dos pinheiros apanhavam apaixonantes insónias de luar. Também os poetas elaboravam versos que faziam brotar o amor dentro das pessoas nobres como se fossem fontes de água cristalina e pura.

A fidalguia de antanho eliminava os problemas deixando de se preocupar com o que de importante se passava no mundo. Viviam nos seus domínios, convencidos da sua genialidade, pescando trutas, caçando perdizes e rolas, ou conquistando fêmeas à moda ainda mais antiga.

Os fidalgos mais ousados, apesar de terem tudo e de namorarem com as primas, deixavam-se tentar pela ideia de irem romper mundo, andar de terra em terra, montados no seu ginete, à procura da melhor caça.

Todos sabemos que na nossa terra, o bom é ser-se estrangeiro.

Era normal os fidalgos apaixonarem-se pelas fidalgas e digladiarem-se na procura da felicidade que cada um trazia dentro de si.

Também havia bailes nos jardins onde os recém-chegados das terras do Prestes João contavam novas histórias de aventuras.

A verdade é que já naquela altura até os bobos eram importados. No século XVIII, por exemplo, Portugal importou cerca de duzentos. Os mais apreciados eram os bobos italianos por deleitarem a assistência com as suas árias napolitanas.

Entre nós ficou célebre o bobo Bórbóla por, nas óperas bufas, entoar a quatro vozes sem desafinar nas notas mais agudas. Rezam as crónicas que não havia burricada, piquenique, festa veneziana ou arraial minhoto a que não comparecesse.

A sua dona Dona Mafalda, mesmo relutante, devido a ser tão requisitado, acabava sempre por cedê-lo quando se tratava de festas de caridade para a Misericórdia de Viana do Castelo ou para o hospício de surdos-mudos de Barcelos. Cantava coisas tão bonitas como: “Láralá, láralá. Láralá. Laráralá   larálálá. Tailalai lará.” E, já no meio dos buxos do Jardim dos Buxos: “Vola, colomba bianca vola alalá. Vola, colomba bianca, vola.”

Algumas fidalgas, ou mesmo princesas, por causa de desgostos de amor, comiam meia dúzia de arrebenta-bois e era uma vez. Naquela altura era tudo muito biológico.

Por vezes as paixonetas avinagravam, como o vinho exposto ao ar, mas os amantes fidalgos depressa elaboravam novas lamechices e iam enternurar-se para trás dos salgueiros. A maioria dos bruxedos acabava em bem.

Claro que as princesas prometidas por vezes viam-se rejeitadas por processos de anulação de casamentos, onde lhes era feito um exame à sua virgindade por quatro médicos, quase sempre movidos pela curiosidade. Muitas acabavam pervertidas.

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